sexta-feira, 17 de maio de 2019

Certamente, ninguém se lembra mais que esse blog existe. Ninguém mais nem lê blogs. Passou o tempo. Ninguém, exceto você, que quando eu mencionei esse blog, já disse logo "um ídolo", sem titubear. Me perguntou se eu havia apagado tudo, como se eu pudesse apagar você.

Eu voltei pra cá porque achei tão interessante poder olhar o que eu pensava dez anos atrás, foi como se eu pudesse me ver. Me deu vontade de me dizer tanta coisa. Aprendi muito nesse tempo que passou, mas não foi o suficiente. Dez anos depois me vejo, novamente, te ligando sem esperança alguma de que sua voz atenda do outro lado. Deplorável.

Mas vamos ao que interessa... Escrever pra mim, pra que eu possa ver outra vez, daqui a dez anos, quem é que sabe?

Os últimos posts desse blog são de quando eu estava começando aquele que seria o pior namoro da minha vida. Mal sabia eu o que me aguardava. Naquele começo foram tantas coisas boas, sentimentos novos efervescendo na pele. Depois de um ano sozinha, restaurada, nenhuma ferida à mostra, eu me entreguei pra primeira pessoa que me ofereceu, ao mesmo tempo, segurança e novidade, corda-bamba com rede embaixo. Eu me joguei porque sempre fui assim: queria sentir tudo que tivesse pra sentir. Não me arrependo, não. Passei umas vergonhas, uns perrengues brabos com isso, mas tudo me tornou o que eu sou hoje, e acho que tenho sorte até demais.

Com a Leila, tudo foi um conto de fadas, até não ser mais. Até a primeira vez que ela ficou bêbada e agressiva. A primeira vez que ela me subjugou e me ofendeu. Até eu começar a também beber às vezes pra ver se eu conseguia curtir igual, pra ver se era melhor. Me lembro de rodadas de tequila e o teto girando. Lembro de tentar comprar lingeries diferentes e frequentar sex shops, coisa que nunca tinha feito. Foram muitas festas, muito álcool, muita coisa que eu nem lembro que fiz.
Ela me cuidava, é certo. Na maioria das vezes. Outras vezes, eu sentava no canto do quarto, de madrugada, e chorava no escuro. Algumas vezes, trancada no banheiro, me olhava no espelho em total desespero me perguntando o que estava tão errado em mim, que eu continuava lá. Aquelas vezes que, na hora de dormir, eu tentava abraçá-la e ela empurrava meu braço. Mas ela estava lá pra mim. Cuidava quando eu tava doente, dava banho se eu estivesse bêbada demais, me levava e trazia pra todo canto, segurou a onda da homofobia na família junto comigo, me apresentou pra família dela, brilhava os olhos quando falava de mim pros amigos, me apoiava nas minhas decisões, me ajudou na mudança, depois trouxe sozinha tanta coisa, vinha me ver, me buscar. Aí um dia ela me traiu e eu descobri e puff. Toda aquela obsessão, finalmente, chegou ao fim. Eu sempre soube que ela ia me trair, porque ela traía todo mundo, sempre, e comigo não seria diferente. E eu passei por todos aqueles abusos, e a única coisa que eu achava que me autorizaria a pôr um fim seria a traição, e ela veio. E eu estava aqui, a duzentos quilômetros de um ombro amigo qualquer que fosse, e entrei em desespero. Voltei a ter crises de pânico e, sozinha, tomava chá de maracujá com camomila pra tentar dormir. Foram noites em claro e litros de água com sal. Uma amiga querida veio passar o final de semana comigo e quando ela foi embora, e me vi sozinha de novo, chorei com mais dor. Aí fui tentar esquecer, baixei o tinder, foi aí que começou outra história, antes mesmo de acabar essa. Enquanto a Leila ainda me ligava bêbada dizendo que a vida dela não tinha sentido sem mim, eu estava no segundo encontro com o Alexandre, com quem eu acabei "casando".

Não cheguei a passar três semanas solteira. Beijei um menino só, e depois ele, e aí já estávamos sérios. Não deu tempo de curar as inúmeras feridas que a Leila abriu em mim, e até hoje estão aqui. Eu nem sei como comecei um relacionamento estando em cacos, como eu estava, meu deus, quanta imaturidade. E não teve ninguém pra me falar que eu não devia fazer isso. Bom, eu mesma me falei, e falei pra ele, e teve confusão e eu não queria ficar sozinha, então aceitei quando ele foi ficando. Esse namoro começou, pelo menos da minha parte, pelo motivo errado. Primeiro, eu não queria ficar sozinha. Depois, era legal estar com alguém que conhecia tudo aqui, que pudesse me mostrar os lugares, porque embora eu já morasse aqui há dois anos, não tinha ido a canto nenhum. Mal tinha passado dois finais de semana nessa cidade. Eu queria alguém que me mostrasse tudo e entrar em algum círculo de amizades, e ter um almoço em família no domingo. Alguém que, de novo, cuidasse de mim. E ele foi maravilhoso em todos esses aspectos. Na verdade, em todos os aspectos possíveis. Sempre me respeitou, poucas foram as vezes que eu vi ele nervoso, acho que nunca levantou a voz pra mim. Brigamos uma vez, por uma crise minha, só minha, que ele não tinha nada a ver. Sempre fomos suaves um com o outro, sempre levamos como se fosse uma brisa. Nunca passou um vendaval. Acho que não saberíamos sobreviver a um. Mas sabe por que não passou? Porque a gente não se conversava. Claro, falávamos muito um com o outro, mas nunca sobre o que realmente acontecia dentro de nós. A gente nunca se conectou verdadeiramente e é por isso que foi tão fácil separar. Com o tempo eu fui sentindo falta dessa conexão real. Os amigos dele eram legais, mas quanto eles sabiam de mim? Quanto o meu próprio "marido" sabia de mim? Ele sabia os dramas que eu vivia no trabalho, na minha família, ele me conheceu em todas as minhas atitudes possíveis, ele sabia exatamente como eu era, mas nunca soube quem eu era. Eu nunca abri essa porta. Acho que errei, mas não foi consciente, não foi intencional, eu só estava fechada. Quando começamos, fiquei toda feliz por perceber que podia confiar nele e que os traumas do meu último relacionamento não estavam interferindo no atual, porque embora eu tenha sido vítima de uma deslealdade monstruosa, isso não acabou com a minha capacidade de confiar nas pessoas. Mas eu acho que entendi tudo errado. Eu confiava nele sim, e não tinha ciúmes, mas não é porque eu fui capaz de confiar. É porque fui incapaz de me importar verdadeiramente. Eu não deixei ele entrar, pra não doer se ele saísse. Eu me fechei, porque não quis sentir de novo a dor de ser traída, seja de que forma fosse. Eu sei que ele não ficaria com outra pessoa, mas essa não é a única forma de traição, e eu não podia me sujeitar a nenhuma. Me tranquei. A ferida está aí, aberta, ainda, a mesma. Minha intenção agora é passar pelo menos um ano sozinha, aprendendo a amar quem eu sou e, pra isso, preciso me transformar numa pessoa que eu seja capaz de amar. Essa é a parte mais difícil.

Em busca dessa mencionada conexão com alguém, eu fui me lembrar da única pessoa que realmente viu minha bagunça interna. O Carlos. Isso foi tudo de uma forma inconsciente. Em nenhum momento no meu relacionamento eu parei pra pensar que não estava me conectando com a pessoa que dormia e acordava do meu lado todo dia. Nunca enxerguei essa falha, nunca. Não sei se tinha conserto, mas sequer percebia que tinha algo pra consertar. E meu inconsciente me trouxe o Carlos e eu tanto fiz que consegui retomar o contato com ele. Quando voltamos a conversar, parecia que era 2009 tudo de novo. Eu comecei a acordar mais cedo porque ficava ansiosa pra falar com ele, passei a almejar ficar sozinha pra poder ligar, e dentro da minha cabeça eu pensava com a voz e o sotaque dele. Foram semanas intensas e eu transbordava. Tudo que eu sentia veio à tona e nele também, e foi um reencontro de almas. Nossas bagunças, embora mais esteticamente agradáveis, continuavam absurdamente reais e caóticas. E aí ele veio, foi, veio, foi, e um dia a gente se encontrou, e nossos olhos se sabiam, nossos corpos se sabiam, como se já se conhecessem. A descarga de emoções que veio de uma vez me tirou do eixo, eu perdi as palavras, eu não conseguia mais parar de pensar que era aquilo que eu queria viver pelo resto da minha vida. E aí ele foi de novo, e veio, e foi, e mesmo sabendo que eu não podia contar com ele, que eu não estaria trocando um pelo outro, eu terminei meu "casamento" de três anos e meio e fiquei sozinha. Engraçado que depois do dia que eu terminei, eu nunca mais ouvi a voz do Carlos. Hoje faz 17 dias. Tem horas que eu sinto saudade, em outras eu quero mandá-lo pro inferno. Daqui a uma semana eu estarei lá e não sei se ele estará, mas tudo vai acontecer como deve acontecer e eu estou em paz. Eu devia isso a mim, fazer o que acho que está certo. 

Vou caminhar só, por aí, pra ver se me encontro.

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