segunda-feira, 5 de abril de 2021

Um rascunho de 2019 que não tinha sido publicado.

Hoje é um daqueles dias em que a necessidade de escrever salta pelos poros. Que o coração pula dentro pedindo por favor pra se esvaziar, que está cheio demais e vai explodir em cinzas. É uma angústia por sentir algo de bom mas não se permitir, nem saber ou entender o que é que está sentindo. Ou porque não mereço ou porque já não sou capaz.
O único amor romântico é o nosso.
Mas eu te reinventei, procurei e encontrei outro você, em outro lugar. Mil vezes mais perto. Exatas mil vezes. E aí ele é o conceito de romantismo. É a fonte de toda a beleza das palavras. E eu não consigo nem ouvir.
Tá tudo calmo e quieto e em paz. E minha cabeça vem regurgitando a imagem do dia em que eu adotei a Betha, depois que a Teca morreu, e eu chorei sem entender nem por que. Como se eu estivesse tentando substituir o amor de uma pelo da outra, a fórceps, a queima-roupa. Queria me rasgar e picotar a dor da perda mas só fui capaz de fazer o que seres humanos comuns fazem: seguir adiante.
Eu não quero deixar esse pedaço meu que ficou em você voltar pra mim.
Nem sei mais me sentir inteira. Sempre teve essa falta, exceto naqueles minutos em que nossos corpos foram um.
Me acostumei à dor da sua ausência e não quero deixar de senti-la.
Mas preciso me desvencilhar dessas garras invisíveis que me levam de volta pra você, mesmo sem saber como ou onde, sem te ver ou perceber onde está.
Fecho os olhos e vejo seu olhar me dizendo junto com a boca que tudo era verdade e sempre foi.
E eu estava de costas e você disse que eu era o amor da sua vida e meus olhos brilharam mais que todas as estrelas de todas as galáxias.
Em resumo, eu estive lá, junto com você, e o mundo poderia acabar, eu nem seria capaz de notar.
E como que depois de experimentar esse mar eu posso perder o medo de me afogar? Se todo o ar que eu tinha acabou há muito tempo e meu corpo é náufrago, escravo da espera pela tua volta?
No primeiro sinal que meu coração deu de se reacender, eu passei a noite inteira sonhando que estava em seus braços. Quando outro abraço me aconchegava com o afeto que preenchia o quarto inteiro, eu só via ausência. Tentava prestar atenção naqueles olhos verdes que diziam "você foi feita pra mim, você é tudo que eu quero e o que eu esperei minha vida toda encontrar", e eu queria sentir o mesmo, juro que queria.
A água condensada já nem jorra mais.
Foi vento e o céu ficando escuro e a temperatura caindo e eu arrefecendo. Igual máquina.
Minha única fuga dos dias iguais é você e é como se alguém me entregasse uma bandeja de felicidades e eu só conseguisse enxergar o vazio porque aquela pessoa atrás dos olhos não era você.
Eu queria bater a porta e sair correndo na rua escura e o salto do sapato escorregando nas pedrinhas de piche molhadas da chuva que passou. Queria chegar com os cabelos molhados e tomar um banho quente, colocar meias fofinhas enquanto ouço o barulho da chaleira apitar a ebulição. Queria me sentir quente e viva por dentro e que meus sorrisos voltassem a sair da alma, que é o que acontecia quando eu tinha você.
Talvez eu devesse agora escrever um texto bonito pra ele, dizendo que ele é quem me faz sentir o que eu sentiria com as meias quentes e a ebulição da água, mas só consigo falar sempre a mesma coisa: você me faz sentir muito mais do que amor. Os outros são os outros, e só.

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