terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Post de nº 300.

Depois de séculos, eis-me aqui.
Toda vez que a vida morde, que rasga, eu corro da solidão às palavras. Só o papel rasga menos que a dor.
Hoje é natal e não teve Simone, nem árvore, nem pisca-pisca. Só os piscas da faculdade, que eu nunca mais verei. Não de lá de dentro, de qualquer forma, porque essa parte acabou. Assim como o estágio, que foi-se, ou melhor, ir-se-á com a colação de grau, já já. Mas daqui até lá, me separam as férias.
A minha namorada está na casa dos pais, que embora perto, é longe demais que eu não posso ir. E nem ela vir, sem ter que se explicar mil vezes ao irmão, que leva a tira-colo, e nunca quer voltar. E não pode justificar o "quero ir embora mais cedo" com "quero ver minha namorada", ficando muda quando perguntam "fazer o quê em casa? Fica aqui, que a mãe vai fazer a janta". E lá está ela, que acaba de me ligar do sofá, depois de ter esperado todo mundo ir pra fora de casa, nesse amor clandestino que nos abriga.
E para além da clandestinidade, vêm as responsabilidades com as quais nunca precisei lidar. Eu, na minha fugaz, porém eterna adolescência, que sempre namorei pessoas da minha idade, tão imaturas e desnecessárias ao mundo quanto eu, que não tinham contas pra pagar, hoje me deparo com alguém que trabalha demais e vive de menos, porque precisa. É complicada toda essa situação que eu nunca havia vivido... Estar sozinha a maior parte do tempo, por causa do trabalho dela. E na verdade nem dá pra lutar: o meu fim será o mesmo.
É isso, ser adulto.
Ser adulto é pagar as contas, e esquecer por dois ou três quartos do dia, a vida.
Com lágrimas nos olhos ao ouvir que ela não chegaria mais cedo, fechou os olhos e tentou aspirar aquele vazio do entorno. Podem ter passado segundos ou minutos, o que, após um dia todo trancado naquele quarto, não importava muito. Porém, quando os abriu, parecia um sinal. À sua frente, o pulso que sequer pulsava, com a tatuagem que fizera há uns dois, três anos, mas que nunca cumpriu.

Ela olhou para aquilo e pensou que talvez fosse um sinal. A vida batendo à porta e dizendo: mova-se. Ou talvez fosse deus ou uma divindade qualquer que não tenha o que fazer e se ocupe em cuidar da vida alheia (isso está mais para uma velha fofoqueira sem vida sexual ativa, né?) querendo dar forças para que ela se levantasse, o que só tinha feito outras três vezes naquele dia, e já eram quase seis horas, apenas para ir ao banheiro e voltar.
Mas não havia forças. E podia ter vindo a divindade - ou velha fofoqueira - que quisesse. Podia ter aparecido o Darth Vader entregando a Estrela da Morte do topo da sua árvore de natal, ou podia ter ressurgido a magia que existia na infância ao acordar cedo e ver uma barbie no pé da árvore, com pisca-pisca. Mas dessa vez não teve manhã, presente, árvore, nem pisca-pisca. Nem ilusões ou loucuras apáticas de personagens de filmes aparecendo em sonhos. Nem deus.
Só a dor nos ossos, o arder dos olhos daquele sono que nem tinha razão de estar ali. E a solidão. O resto era apenas o sol lá fora, as pessoas aproveitando a família, gritos, vez ou outra, de uma criança visitando - e irritando - parentes que moravam por ali. Mas ela estava na sombra, imóvel, e dali não queria - ou não podia? - sair.
Então ela se virou, pegou o notebook, e escreveu, esperando que, assim, a dor parasse de rasgar.
Não funcionou.


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Né, princeso?

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
(...)
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
(...)
Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.
(...)
Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Alvaro de Campos - Passagem das Horas
http://www.insite.com.br/art/pessoa/ficcoes/acampos/445.php

Nem tudo pode ser perfeito

Na verdade, não existe nada perfeito. Quando é bom demais, tem alguma mentira no meio.
Ninguém disse que ser feliz vem naturalmente.. O sucesso não vem naturalmente, dinheiro também não... Amor também não. Por que seria diferente? Se pra conseguir qualquer coisa na vida vc tem que trabalhar por isso, se esforçar, fazer sacrifícios, por que com o amor tudo seria tão fácil?
O nosso problema é que a gente insiste em querer que pelo menos o nosso relacionamento seja a parte fácil da vida. Às vezes é. Nessas vezes, é porque não tem significado algum. É só alguém que está lá com você, e quando não estiver, outra pessoa estará. Nessa hipótese, realmente, não precisa de esforço, porque tanto faz.
Mas quando você realmente ama alguém, ainda que não veja explicação lógica nem consiga identificar quando foi que isso aconteceu e por que foi com você, não é bolinho não.
A gente vê esses casais tendo mil e um problemas, terminando e voltando, discutindo, com um milhão de obstáculos no relacionamento, e mesmo assim tentando fazer dar certo. E a gente vê outros casais que mal se formam, já se separam ao primeiro sinal de desentendimento. Cada um que decida o que lhe faz bem né, não cabe a ninguém do lado de fora julgar isso.
O que eu quero dizer é: quando dois olhares se encontram em meio ao que quer que esteja acontecendo e se iluminam juntos, se compreendem sem palavras, se conhecem e se sabem até na escuridão, quando dois olhares vêem o mesmo mundo da mesma forma, vale a pena qualquer esforço.
Acontece que ninguém tá preparado para lutar por uma coisa assim. As pessoas não vêem muito sentido nisso. Tem tanta gente no mundo pra dar certo... Tanta panela pra sua tampa... Por que não procurar alguém que tenha os mesmos gostos, as mesmas opiniões, os mesmos planos, a mesma profissão, os mesmos desejos.... Alguém igual? Sim, deve existir, não duvido disso. Mas seria chato. Seria morno, rotineiro, não seria passional. E acabaria no tédio.
O meu relacionamento é um grandessíssimo desafio, por N motivos. E quem vê de fora, e até eu às vezes, diz sem sombra de dúvidas que tá tudo errado. Mas é completo, sabe.
Eu amo ler e ela ama esportes, eu corrijo o português de jornalistas e ela faz contas de tudo de cabeça. Eu só sei fazer massa, ela não, mas sabe todo o resto. Eu odeio mercado, ela sabe o preço de cada coisinha. Eu me perco em cada esquina, ela pode ter passado uma vez ali que já sabe onde é tudo. Mas eu sei ler mapas, ela não sabe como funciona a bússola kkk. Adoro coisa que engorda, ela ama salada. Ela pede prato de comida que vem com batata frita e eu peço carboidrato que vem com salada e a gente troca a parte que interessa. Pelo menos a gente ama os mesmos sabores de pizza. :)
A gente dorme vendo filme e eu já até ensinei pra ela algumas coisas de MPB. Ela corrigiu quando a aeromoça falou comprimento em vez de cumprimento. Eu achei lindo.
Eu aprendi a dançar pra dançar com ela, ela aprendeu a ver séries comigo. Aprendeu a se apressar e chegar no horário e eu aprendi a não me estressar tanto com as coisas. Aprendi a importância do que realmente importa.
Aprendi a amar cada defeito, quando ela troca o "p" pelo "b" e o "f" pelo "v" e não consegue repetir "dislexicazinha" e é a mais linda. Aprendi que a vida pode ser descomplicada, que a gente pode ser mais simples, que os fatos devem ser aceitos e não adianta lutar contra o que não se pode mudar, a gente tem que se adaptar. Aprendi a ver nela a força que eu nunca tive e a tirar forças dela quando o resto desaba. Sou mãe e filha, amiga, irmã, amante, cuido, descuido, sou cuidada. Sou amada.
Descobri que, de algum jeito, as coisas vão dar certo.
Mas mesmo assim, nada vem de graça. E a gente tem que lutar e aprender a lidar com as diferenças, ficar quieto algumas vezes, relevar alguns problemas, aprender a gostar de algumas coisas (ou fingir) e eu percebi que sou capaz de fazer o que for necessário por um sorriso dela.
 
"Porque acordar sem você é ficar cego no amanhecer
É assistir o fim do mundo, depois escurecer
E eu no meio disso tudo sem saber
Que já estamos no início do que vamos ser"
 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Espera... longa.

Eu tinha abandonado isso daqui. Eu acho que quando a gente se sente plena, falta inspiração. Não, não falta inspiração, a gente acorda e vai dormir inspirada e isso se torna corriqueiro... normal. Mas quando a gente tá plena, tem sempre alguém pra ouvir tudo que temos pra dizer, não precisa escrever aqui. Acho que é isso, eu to completa agora, sabe.
Mas também esse blog tem muita história, tem a minha vida. Tem os melhores e os piores momentos que eu passei, tudo simultaneo. Tem tanto sentimento que escorre sangue pelas páginas.
E hoje eu estou aqui de novo, em paz na alma.
Cai tanta chuva agora... O vidro da janela embaça com a minha respiração. Eu estou sozinha mas ela está aqui dentro, junto comigo. Logo vai passar, o tempo vai trazê-la de volta pra mim... É só agora, dias passam bem rápido.
Eu me dei conta de que a gente sempre espera alguma coisa chegar, nunca é o agora que vale, é sempre depois.
Sair da faculdade e entrar no carro dela, parar na rua de baixo e ficar aquela meia hora cronometrada que passava voando também valeu tanto a pena quanto o resto das nossas vidas.
Eu sinto falta disso também... Agora que nem isso eu tenho mais, por uns dias.
Quando a gente ta vivendo a coisa parece que ela não vai passar nunca mais... É tanta dor. A espera dói demais, é como se cada novo dia que nascesse fosse um espinho a menos fincado no nosso corpo. E a cada noite, ao deitar pra dormir, a cama fosse feita desses mesmos espinhos. É ir dormir esperando que passe logo, chegue o próximo dia, e o próximo e o próximo... E imaginar quantas noites ainda faltam pra acabar.
E aí acaba e vem outra coisa.
Eu conto os dias pra ela voltar, conto os dias pra entregar o tcc, apresentar, conto os dias pra última semana de provas... pra formatura, pro meu primeiro emprego, pra podermos mudar pra nossa casa. Conto os dias pro jardinzinho com alecrim e manjericão. Espero o dia que o sol vai atravessar a cortina e beijar sua pele, e eu estarei ali, a olhando dormir.
Espero pra dizer aquelas minhas coisas que ela acha tão bonitas e nem são. Espero pra ouvir aquelas coisas tão bonitas que ela chama de improviso. Espero pela vibração das cordas do violão e o descanso.
Espero pela rede na varanda com a brisa quente de verão. Espero pra contar as estrelas e presentear, com uma por dia, seu sorriso lindo.
Espero que essa fascinação nunca acabe, que seja assim, desesperado esse amor. Louco, impossível de conter... Espero que esse brilho nunca se esvaia dos seus olhos. Espero que eu seja sempre responsável por ele. E nunca exista dor entre nós.

sábado, 26 de maio de 2012

2 meses [♥]

Ontem fez dois meses. E por mais que estejamos nessse loop infinito de emoções, posso ainda dizer que existe certeza. Pelo menos a certeza do desejo de ser eterno. Enquanto dure. Ou não. É melhor não pensar no fim, não é?
Nessas últimas semanas tanta coisa aconteceu... Senti que estava sendo testada. Não sei por quem, nem qual o preço ou o prêmio, mas alguma coisa queria me dizer que eu precisava pensar de novo... E eu pensava, e não encontrava resposta.
Não adianta eu chegar aqui e dizer que somos almas gêmeas, metades que se completam. Não, não existe tal coisa. Quando um adora uma coisa que o outro odeia, vai dar briga, bico, cara feia. Alguém vai ter que se sujeitar a fazer alguma coisa que não quer em algum momento. Porque o mundo não é um quarto fechado com uma cama, se fosse assim... Ah, seria bom, hein! haha
O mundo tem cobranças e pessoas cuja ocupação é cuidar da vida alheia.
Só que eu sempre fui honesta, todo mundo já me conheceu com as minhas opiniões críticas, meu sarcasmo e minhas teorias... Agora, ficar se incomodando com isso? Vamos estar arrumando o que fazer.
Mas parece que tudo vai se encaixando no seu lugar e o amor é realmente inexplicável. Acho que ele existe quando não se conseguem obter razões objetivas pra sua existência, aí sim. Ele existe quando você pára e pensa: meu deus, essa pessoa é toda errada! E mesmo assim, o beijo, o toque, o cheiro, o gosto parecem tão certos.
Dá medo de chegar lá na frente e não encontrar motivos pro tempo e tudo que aconteceu, mas quem é que vive de motivos? Vivemos de sorrisos, de olhar pra trás e ver o que valeu a pena. E lembrar daquela confidência no meio da madrugada e daquela risada abafada porque tá de noite e o vizinho vai brigar... E conhecer cada centímetro do outro corpo e da alma também, e estar tão junto já não basta, dá vontade de ficar dentro e nunca mais sair. Dentro dos órgãos, sabe?
A vida é mesmo assim, "dia e noite, não e sim". Existem momentos de silêncio, de medo, de angústia quando tá longe, de incompreensões e dúvidas, muitas dúvidas... Mas também existem os abraços, os arrepios e o calor do toque.
E no final do dia, você sabe... Ah, sabe... Que por tudo e apesar de tudo, aquela é a melhor parte de você.