De tarde, quero descansar. Chegar até a praia e ver se o vento ainda está forte, e vai ser bom subir nas pedras... Sei que faço isso pra esquecer, eu deixo a onda me acertar, e o vento vai levando tudo embora...
Agora está tão longe, ver a linha do horizonte me distrai... Dos nossos planos é que tenho mais saudade, quando olhávamos, juntos, na mesma direção. Aonde está você agora, além de aqui, dentro de mim?
Agimos certo, sem querer... Foi só o tempo que errou. Vai ser difícil sem você, porque você está comigo o tempo todo; e quando vejo o mar, existe algo que diz que a vida continua e se entregar é uma bobagem.
Já que você não está aqui, o que posso fazer é cuidar de mim. Quero ser feliz ao menos, lembra que o plano era ficarmos bem?
Bem... Olha só o que eu achei: cavalos marinhos.
Vento no Litoral - Legião Urbana.
Ouvir essa música sempre trouxe instantaneamente à minha mente uma imagem muito nítida. Algo que eu vivi e passei semanas revivendo, como se acontecesse de novo, todas as vezes que eu fechava os olhos diante da paisagem. Eram olhos muito azuis olhando para a frente, enquanto eu, um pouco mais baixa que o dono dos tais olhos, o observava de perto, em cada detalhe. Me lembro da blusa de frio preta, de gola alta. Me lembro do frio que fazia, das mãos geladas, uma na outra. Uma ou outra gota de chuva, mas estávamos protegidos. Havia a proteção no horizonte, para onde ele olhava. E eu, para ele. E depois do fim, eu ouvia essa música e só conseguia pensar nisso.
Mas como o plano era ficarmos bem, eu quis ser feliz, ao menos. Agora, substituição de lembrança musical. Porque alguém que eu amo, ama a música. Porque eu tenho uma foto olhando para o horizonte, talvez o procurando. Porque já me esqueci da cor exata dos tais olhos azuis, porque não fazem mais diferença. Porque, finalmente, eu sinto alguém comigo o tempo todo e o tempo só faz cócegas, não machuca.
Por mais que a música seja sobre o fim, saudades de planos que já foram desfeitos, não saber como seguir, afundar no mar até encontrar cavalos marinhos, eu encontro nela outra interpretação: a força do amor. Que amores acabam, claro que acabam. Mas alguns não - talvez os saudáveis; talvez os verdadeiros.
E se bem me lembro, no disco "Como é que se diz eu te amo", que é um show da Legião no Metropolitan, o Renato Russo pergunta:
- Quem que já sofreu por amor?
- (Geral gritando EEEEU)
- Tudo isso já se apaixonou de verdade? Eu sempre faço essa pergunta porque... Eu não acredito nisso. Eu cheguei à conclusão que, se o amor é verdadeiro, não existe sofrimento. Não de "aaaah", sabe qual é? Senão fica um cara doente que nem o cara dessa música agora.
E começa a tocar Vento no Litoral.
Em primeiro lugar, a maioria das pessoas que eu já vi "morrerem de amores", namorarem anos a fio e até se casarem, não se apaixonou de verdade. Mesmo porque em namoro com traições, idas e vindas, submissão de um, ordens do outro, falta de diálogo, gritos e ofensas é impossível que haja realmente amor.
Se apaixonar está dentro do amor. Amar é se apaixonar todos os dias. Amor sem paixão acaba, ou dura por medo de perder a rotina. O Renato pensa igual, porque falou de paixão e amor como se estivessem juntos, e estão. E dá a entender que a paixão só existe se o amor é verdadeiro. E, se o é, não existe sofrimento, não de "aaahh", ou seja: não de se deprimir e querer cometer suicídio, afundar no mar, como o cara da música.
Toda relação tem brigas, angústia, saudade, decepção. Tudo isso causa dor, sofrimento. Mas, num amor verdadeiro, isso é nada quando comparado ao sorriso incontido ao encontrar o olhar do outro. Olhos que, juntos, sempre estarão felizes.
Em segundo lugar, já que pouca gente se apaixonou de verdade, como saber? Claro que cada sentimento, por cada pessoa, será diferente. "E mais uma vez, direi que nunca amei tanto em toda a minha vida" (Fernanda Young). Nesse texto, ela fala da música "Retrato em Branco e Preto" de Chico Buarque. Acaba dizendo que é tudo uma ilusão, que a gente sempre sabe que nunca vai dar em nada, e mesmo assim segue pela estrada, mentindo para si e para o outro, que também mente para si e para o outro. Diz que nunca amou assim, e coleciona mais um "Soneto da Separação", no final da história.
Já eu acho que se pode amar alguém mais do que jamais se amou, por ver nele a certeza de tudo aquilo que sempre quis. "Olha, você tem todas as coisas que um dia eu sonhei pra mim (...) eu, que sempre fui tão inconstante, te juro, meu amor, agora é pra valer". E mesmo que você já tenha aceitado dezenas de pedidos de casamento, planejado comprar uma casa, ter um filho, envelhecer junto com alguém na casa de vidro no lago... Não importa, quando chega o "agora é pra valer", apesar de serem os mesmos planos, estes finalmente parecem reais. Você consegue vislumbrar, sentir, saber.
Eu sei. E me perguntem em 50 anos, veremos se eu acertei =)

4 comentários:
kkkkkkk
É... o amor é cheio dessas coisas.
Força e sempre! :)
e a esperença? estive pensando um pouco nela. Esperança, não de algo do tipo voltar atrás, e sim a novidade, um novo destino a ser traçado.
Algo tipo Metal Contra as nuvens.
"E nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz; teremos coisas bonitas pra contar. E até lá vamos viver, temos muito ainda por fazer. Não olhe pra trás, apenas começamos."
:) Força sempre!
bom. gostei =)
acho q sentir esse pseudo amor, um dia ter sentido esse gostar de estar com alguém, apenas, é indispensavel pra reconhecer o amor de verdade, e não deixa-lo passar por imaturidade emocional.
enfim, o blog eh seu, sem devaneios meus ^^
Orgulho da minha sobrinha gente.. Se expressa tão bem.. O amor como sempre é complicado defini-lo e estou sem condições de comentar sobre isso rsrs.. Só sei q já amei e não sei se ainda amo.. Beijos sobrinha da titia..
2275 visualizações?? Tá se achando kkkk
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