quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Reticências.


É poético, na madrugada, encarar o relógio e a janela marcada das gotas de chuva de mais cedo. Uma garrafa com areia e conchinha pra lembrar de nem um mês atrás. Uma das conchinhas eu dei pra ele mas que sentido ele ainda faz?
A agenda são dias corridos um atrás do outro com linhas anotadas ou não. Todos dias que já se passaram e eu não existi em nenhum deles. Um robô que acorda, come, trabalha e dorme. E se relaciona com as pessoas porque ta no mundo e no mundo tem gente e então a gente tem que conversar. E não sabe ter sentimentos ou administrá-los bem. É tudo questão de gerenciamento, mas ninguém nasce gerente.
Tinha um papel rasgado de presente que eu ia guardar mas acabou ficando ali. Arrumou um lugar. Até um papel velho tem um lugar e por que é que eu não tenho?
Parece que as coisas foram feitas pra se encaixar, um grande quebra cabeça que veio numa caixinha, se você não estava dentro dela, se ferrou, não tem lugar pra você. É, eu sou a peça que veio a mais. Que não cabe lá e ninguém se preocupou em descobrir qual é a peça repetida e tirar de lá, pra me colocar.
É interessante não ter um futuro pra imaginar. Eu olho pra fora e lá só tem as luzes que ficam em cima dos prédios pra avião não bater. É tudo tão preto, escuro, sem vida, que reflete nos meus olhos as lembranças do que passou. E não chega a doer. Não provoca nada. Eu fico triste porque não estou triste. Porque eu estou fria. E eu sei que isso não chega a nenhuma linha que deve ser rompida. A linha está lá, mas pra quê romper? Pra quê começar? Pra quê insistir?
Mas eu fico insistindo porque eu não aceito, eu simplesmente não aceito isso, de não existir. E a gente sabe que tem uma coisa lá, que sempre me traz de volta, mas desde quando os meus braços têm sido mais fracos que a correnteza? Eu consegui sofrer a dor de uma faca cravada no peito, num olhar que eu sequer vi de adeus e que nunca mais apareceu. Eu sofri isso e vivi, e nadei. E hoje eu não sofro nada e mesmo assim a correnteza me puxa? Isso não faz sentido.
Essa falta de brilho no meu olhar e a vontade de quebrar tudo que tem cor porque a minha vida ta em preto e branco me dá medo. Porque o amor é o que faz a gente ver tudo colorido mas será que eu ainda sou um ser capaz de amar? Ou eu sou apenas um robô, preto e branco, sozinho?
E se eu sou capaz de amar, ainda, e se eu sei que não é essa a pessoa, e se eu, hipoteticamente, consigo ter esperança de que ainda existe alguém, e se eu aprendi a esperar, e se eu aprendi a não esperar demais de ninguém, e se não tem nada pra deixar pra trás, por que o ar ta tão difícil de entrar aqui dentro de mim? E o barulho que eu faço pra respirar é mais alto que o do relógio e não cai uma lágrima dos meus olhos?
Divagações, madrugada. Sem falar de lua, de flores, de cheiros. Porque hoje é só uma sala branca com a luz apagada.

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