sábado, 25 de dezembro de 2010

Eu não quero a luz

Por quê eu não consigo me desconectar?

Eu não sei se passei segundos ou horas olhando pra essa frase numa folha de papel. Poderiam ser dias. Meses. Foram meses. Serão ainda quantos?
Quem procura demais acha até o que não estava procurando.
Talvez eu tenha até encontrado a minha estrela, pra brilhar onde eu for. Pra eu dormir bem, sempre.
Essas lembranças não se soltam de mim, e eu ainda penso, será que ele pensa?
Mas não importa se ele pensa, porque não é pra pensar, não é pra ninguém pensar. Talvez tenha mesmo sido tempo perdido, eu acho que foi. Doeu tanto, já. Já deu, né? Mas por que continua?
As palavras atravessadas me tomam de assalto no meio da madrugada, no meio da paisagem fixa, no meio das estrelas, na luz da lua, na calçada, na grama, no mar. A voz, os gestos, até a pose. O olhar. O riso incontido, a timidez, a mão no rosto pra esconder. Tudo isso soa romântico, mas é patético. É ridículo. Eu não devia mais lembrar, mas por que eu lembro tanto? Eu já estive tão mais envolvida, tecnicamente, e nada do meu passado tem este efeito devastador. Como eu posso nem sentir as rochas no meu caminho, mas sinto as do caminho tão mais distante, tão fora de mim, tão o “antigo do que sou”.
Não que eu não tenha meus momentos de paz ouvindo “Daqui desse momento, do meu olhar pra fora, o mundo é só miragem... A sombra do futuro, a sobra do passado, assombram a paisagem” enquanto olho pra campos floridos e depois com pasto e depois com árvores frondosas e o horizonte sem nada feito pelo homem. E aí eu penso por que é que o homem veio ao mundo? Já viu algo de bom que ele faça? O ser humano é péssimo. Faz mal. É mau. Conviver em sociedade é um caos e eu acho que não estou pronta, mas onde é que eu me escondo? Esqueceram da gruta abandonada onde eu pudesse me enfiar. E tapar a porta. E viver no escuro, porque tudo que ilumina também traz luz à memória e ela tem que passar uns tempos no escuro.
Eles dizem que pra quem espera o sol chega, que a parte mais escura da madrugada é logo antes de amanhecer. Mas quem disse que eu quero o sol? Quem disse que eu quero ver? Talvez eu tenha pego toda essa sujeira e enterrado debaixo de um pé de árvore que nunca nasceu, nunca deu frutos. Está morto lá em cima do lixo. E de vez em quando o vento passa e tira um pouco da terra, e uma folha rasgada sobressai. E eu vejo. E aí essa sensação horrível de confusão e desespero me toma de um jeito que meu corpo se recusa a comer, a descansar. Meus olhos não se fecham mais por medo da imagem que possa se formar no fundo deles. Minhas mãos tremem porque palavras escritas também não podem expressar. E minha voz rouca, falha. O mundo falha. O mundo pára de girar, e a manhã continua, pra sempre.
Eu não quero a luz!

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