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domingo, 9 de outubro de 2011

Only once in your life, I truly believe...

Só uma vez na sua vida, eu verdadeiramente acredito, você encontra alguém que consegue virar seu mundo completamente. Você lhe conta coisas que nunca compartilhou com outra alma e ele absorve tudo que você diz, e realmente quer ouvir mais. Você divide esperanças para o futuro, sonhos que nunca vão se tornar realidade, objetivos que nunca foram atingidos e as várias decepções que a vida te jogou. Quando algo maravilhoso acontece, você mal consegue esperar para contar pra ele, sabendo que ele vai compartilhar da sua emoção. Ele nunca tem vergonha de chorar com você quando você está sentindo dor, ou rir com você quando você faz uma tola de si mesma. Ele nunca fere seus sentimentos nem te faz sentir que você não é boa o suficiente, mas ao contrário, ele te constrói e te mostra as coisas em você que te fazem especial e até bonita. Nunca existe nenhuma pressão, ciúme ou competição, mas apenas uma calma quieta quando ele está por perto. Você pode ser você mesma e não se preocupar com o que ele vai pensar de você, porque ele te ama por quem você é. As coisas que parecem insignificantes para a maioria das pessoas, como uma nota, música ou caminhada se transformam em tesouros impagáveis, que são mantidos em segurança no seu coração para apreciar para sempre. Lembranças da sua infância voltam e são tão claras e vívidas que é como ser jovem de novo. Cores parecem mais claras e brilhantes. O riso parece ser parte de uma vida diária, quando antes era raro ou nem existia. Uma ligação ou duas durante o dia te ajuda a sobreviver por um dia longo de trabalho e sempre traz um sorriso ao seu rosto. Na presença dele, não é necessária uma conversação contínua, mas você descobre que está contente só por tê-lo por perto. Coisas que nunca te interessaram se tornam fascinantes porque você sabe que elas são importantes para esta pessoa, que é tão especial para você. Você pensa nele em todas as ocasiões, e em tudo que você faz. Coisas simples o trazem à sua cabeça, como um pálido céu azul, um vento gentil ou até uma nuvem de tempestade no horizonte. Você abre seu coração, sabendo que existe uma chance que ele será quebrado um dia, e ao abrir seu coração, você experimenta um amor e um prazer que você nunca sonhou que seria possível. Você desobre que ser vulnerável é a única forma de permitir que seu coração sinta verdadeiro prazer, que é tão real que te assusta. Você encontra força em saber que tem um verdadeiro amigo e, possivelmente, uma alma-gêmea que vai se manter fiel até o fim. A vida parece completamente diferente, excitante e valendo mais a pena. Sua única esperança e segurança está em saber que ele é uma parte da sua vida.


- Bob Marley (por uma tradução livre feita por mim sem nem olhar o dicionário, então não deve estar tão exata. Mas é que eu vi isso e queria compartilhar... Mas por ser um texto muito longo em inglês, sabia que ninguém ia ler. Daí é isso - acabei de acordar, nem levantei ainda. Mas a urgência...)

http://happythings.tumblr.com/post/11213048894 

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Admirável mundo novo

É assim que todas as mulheres passaram a se vestir. Agora, que todo mundo já fez as compras primavera/verão 2012, pagando absurdos por pequenos pedaços de tecidos fabricados em algum cortiço do terceiro mundo em condições sub humanas e gerando mais e mais resíduos para o meio ambiente que mal aguenta o que já tem, por um motivo inútil: a moda. Não é porque ela precisa da roupa, é porque está na moda. Simplesmente assim.
Óbvio que eu sou contra a breguice, acho que todo mundo tem que se vestir de um jeito mais ou menos bonito, mas alguém, por favor, me explique: qual é a graça de andar na rua e ver TODO MUNDO igual a você?
São apenas seres que não pensam, não têm opinião própria nem visão crítica, são apenas meros robôs que seguem a cadeia de consumo que a indústria do capitalismo impôs às mentes pequenas. 
Eu acho linda essa saia, mas já desisti de comprar. As pessoas têm que sair dessa ilusão... quem foi que disse que era bonito ser igual? Quem disse que todo mundo tem que seguir o padrão? A indústria, que quer simplesmente alienar todas as pessoas pra que elas achem que PRECISAM daquilo e joguem fora a cada seis meses todo o guarda-roupa para comprar tudo novo porque IMAGINA andar de salto plataforma agora que entrou na moda salto fino!? IMAGINA usar xadrez no próximo inverno.
Sim, porque até pouco tempo atrás, em todos os lugares que você ia, 90% das meninas estavam de blusa xadrez (daquelas tipo toalha de pic nic), shorts jeans e bota de montaria. Não sei onde que tá a beleza nisso aí. Não sei quem inventa estas tendências e todo mundo acredita. Até uns cinco anos atrás, cintura alta era HORRÍVEL, a gente fugia de calça assim, só era bom quando era cós baixíssimo, que nem dava pra sentar direito. Aí veio o cós alto e agora é ridículo mostrar a barriga. Aí como todo mundo tem que ser igual, lá me vêm as gordinhas botando a saia cós alto porque daí não mostra a pança e ficam todas apertadas com cintos e botões quase estourando, porque TEM QUE ESTAR IGUAL À MODELO DA PASSARELA! Gente, vamos nos libertar, sabe.
Nego não se liga que é simplesmente ESCRAVO do que dizem. Que não pensa, só compra. Tudo isso é APENAS E TÃO-SOMENTE pra ganhar dinheiro! Ou vocês acham que moda é amor à beleza? Me poupem. 
A moda é cíclica, disso todo mundo sabe. Mas por quê? Pra dar tempo de você ter jogado fora aquela calça boca de sino e daqui a dez anos ADIVINHEM qual vai ser a ÚLTIMA TENDÊNCIA das passarelas de Paris? Uma chance.
pff.

Eu só acho que gente/coisa previsível e padronizada é idiota.

domingo, 24 de abril de 2011

Obrigado.

Obrigado (Por Ter Se Mandado)
Cazuza

Obrigado
Por ter se mandado
Ter me condenado a tanta liberdade
Pelas tardes nunca foi tão tarde
Teus abraços, tuas ameaças

Obrigado
Por eu ter te amado
Com a fidelidade de um bicho amestrado
Pelas vezes que eu chorei sem vontade
Pra te impressionar, causar piedade

Pelos dias de cão, muito obrigado
Pela frase feita
Por esculhambar meu coração
Antiquado e careta
Me trair, me dar inspiração
Preu ganhar dinheiro

Obrigado
Por ter se mandado
Ter me acordado pra realidade
Das pessoas que eu já nem lembrava
Pareciam todas ter a tua cara

Obrigado
Por não ter voltado
Pra buscar as coisas que se acabaram
E também por não ter dito obrigado
Ter levado a ingratidão bem guardada

Pelos dias de cão, muito obrigado
Pela frase feita
Por esculhambar meu coração
Antiquado e careta
Me trair, me dar inspiração
Preu ganhar dinheiro

_________________________________

Eu nunca havia ouvido essa música, e pensando bem ela faz todo o sentido com relação a uma ou duas pessoas que nunca pensaram em voltar pra buscar as coisas que se acabaram. Estas foram as piores.
Ninguém pode dizer que nunca teve uma ou outra decepção de amor, sabe. E também tem isso: no primeiro dia você chora, no segundo perde a fome, no terceiro compensa comendo chocolate. No quarto já levanta e volta pra vida porque ela não vai ficar te esperando, e cada dia perdido é uma oportunidade jogada fora.
Mas independentemente de quantos dias tenham se passado desde que eu botei de volta a cara no mundo, essas sombras ainda ficam ali no cair da tarde, atrás da cortina. Parece que de vez em quando elas ressurgem e cobrem o sol.
A dor é bem pior quando não é dividida, sabe? Quando a outra pessoa não tá nem aí, e você se descabelando do outro lado. E mesmo depois que ela passa, ainda ficam essas sombras. Sei lá, é como se o mundo tivesse aquele jeito certo de ser, das pecinhas se encaixarem, do sim se ligar ao sim, do desejo precisar do desejo do outro. E aquele segundo pelo qual passou pela sua cabeça de ligar, mas você se segurou... E pela dele, nem passou. Sabe? Nessa hora o mundo não encaixou mais, e aí saiu do lugar.

Pra mim o mundo devia ser composto de equações matemáticas, de programinhas de computador. Aparece lá o pedido: você deseja ser meu amigo? Sim. Você deseja me dar um beijo? Sim. Você deseja passar noites inteiras abraçados conversando sobre o clima, a lua, como foi seu dia, o que você quer ser quando crescer, que tipo de flor vai decorar a igreja, o nome do nosso primeiro filho, o lago em frente à nossa casa de vidro quando ficarmos velhinhos de mãos dadas vendo o sol se pôr? SIM SIM SIM!
Senão, não.
E aí tudo estaria resolvido (y)

Mas aí tenho pensado cá comigo esses tempos que é muito diferente um cara de vinte de um de vinte e oito, saca? E eu to vivendo essa história de conquista, de não ser escancarado. De não chegar e perguntar, ou dar um beijo, ou pedir pra segurar a mão na escada rolante do shopping igual a quando eu tinha quinze anos. Mas sim as duplas interpretações, o vazio no meio da frase, uma espécie de "complete e saiba o que eu estou sentido". Tem os olhares, a dúvida, o passar a noite pensando na frase fatal que vai dizer no dia seguinte. O gostar e fingir que não, o observar cada detalhe e fazer de conta que não viu, depois soltar sem querer, mostrando que reparou. É o tom de querer saber quem é "esse" e o que você fez ontem, por quê não veio.

A conclusão é que sim, a vida seria muito mais fácil no programinha de computador. Mas o coração acelerado que vem com a conquista, isso o computador não reproduz, nem faz sentir.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O ouro fosco


BLAM! Bateu a porta com a força que sempre teve e nunca usou. O carro arrancou com a ligeireza de quem sequer olhou para trás. Ele foi, com uma mão no volante, e a outra envolta em sua melhor companhia - uma garrafa de scotch quase vazia. Já ela, sozinha, seguiu. Só que para o outro lado.
A chuva que há pouco caíra mantinha um ar úmido que entrava por seus pulmões e limpava, como que arrumando a casa. Jogava água nos tijolos secos que a partir de agora construiriam seu interior. As pedrinhas do caminho afundavam sob o salto do sapato caro que ela havia comprado especialmente para a ocasião, suas bodas de ouro aos 66 anos de idade. Comemoraria o que bradava sempre aos quatro ventos: seu orgulho pela vida que construiu, pelo amor que encontrou sem ter precisado do tempo para conquistar. Tão difícil e tão simples, esse era o grande sucesso.
Na caminhada, os pensamentos desobedeciam a sua imposição prévia de se manterem quietinhos e faziam uma bagunça barulhenta que, não fosse o fato de que conhecia aquelas ruas como o berço em que se criara, se teria perdido em meio às alamedas escuras, já que tudo dentro e à sua volta era, agora, labirinto, desconhecido.
Aquele a quem ela abandonava passo a passo havia há muito se transformado em seu lar, de onde ia e vinha todos os dias do mercado carregando nos braços pacotes de tudo aquilo que seria correto ser e agir uma vez mulher. Jamais contou com uma mão marital que a ajudasse, repartindo os pesos que a vida trazia. Ao contrário, era apenas ela e seus planos, as viagens românticas em que sempre acabava sozinha olhando a bela paisagem, enquanto ele virava a noite no bar do hotel. Mas ela se mantinha vivendo no mundo bom que sonhara para si e não deixaria que qualquer pessoa a arrancasse dele.
No entanto, hoje, era como se ela houvesse furado a bolha e saltado para a vida. Tirou a venda dos olhos e o que podia ver era o fracasso que sempre escondera por detrás do sorriso nas fotos de molduras tão caras. Era uma liberdade que ela nunca se permitiu buscar, porque considerava sua vida atrelada à daquele homem, como se qualquer outro caminho que não com ele se transformasse numa contramão. Sua realidade não era tão boa quanto desejaria se pudesse escolher novamente, mas ponderando todas as pobres decisões que tomara na vida, resolveu que esta ela faria por bem em manter. Os piores erros só se mostram quando depois de toda a espera e derrota, piscamos para o passado e enxergamos o que, por anos a fio, não conseguimos ver, mesmo estáticos, olhando profundamente. É como encontrar o desenho escondido – e tão óbvio – num quadro pelo qual se passa todos os dias.
E com a batida da porta do carro, ela se virou e viu um caminho vazio que continha apenas as suas pegadas e papéis rasgados pelo chão. Nunca houve um marido, mas apenas o rótulo. E os gritos que ela nunca pôde ouvir agora ecoavam, tentando dissuadi-la de exercer a profissão que escolhera - ser mulher daquele homem. Entretanto não restaram mágoas, foi ela quem quis. Ele tinha necessidades, ela as supriu sem considerar suas próprias, julgando que nunca poderia dizer não, saltar do cavalo em plena corrida e abandonar a vida perfeita. Se houve algum erro, foi dela, por não ter percebido a tempo que o tempo era seu, e que não havia vitória naquela linha de chegada.
O vento úmido assoviava uma compreensão talvez tardia, mas ainda útil, de que só vale a pena seguir um papel se for fruto de seu próprio roteiro, enfim. E as pedrinhas no asfalto do caminho de volta a afundavam como que abrindo um mundo abaixo deste, uma vida depois desta, uma chance.

domingo, 6 de março de 2011

A Dor que Dói Mais


         Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dói. Bater a cabeça na quina da mesa, dói. Morder a língua, dói. Cólica, cárie e pedra no rim também doem. Mas o que mais dói é saudade. Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Dói essas saudades todas. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o escritório e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
         Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando
no inverno, não saber mais se ela continua pintando o cabelo de vermelho.
Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu, não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango assado, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Coca-cola, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua surfando, se ela continua lhe amando. Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. Saudade é não querer saber se ele esta com outra, e ao mesmo tempo querer. É não querer saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo querer. É não querer saber se ela esta mais magra, se ele esta mais belo.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
                                            (Martha Medeiros)

sábado, 25 de dezembro de 2010

Eu não quero a luz

Por quê eu não consigo me desconectar?

Eu não sei se passei segundos ou horas olhando pra essa frase numa folha de papel. Poderiam ser dias. Meses. Foram meses. Serão ainda quantos?
Quem procura demais acha até o que não estava procurando.
Talvez eu tenha até encontrado a minha estrela, pra brilhar onde eu for. Pra eu dormir bem, sempre.
Essas lembranças não se soltam de mim, e eu ainda penso, será que ele pensa?
Mas não importa se ele pensa, porque não é pra pensar, não é pra ninguém pensar. Talvez tenha mesmo sido tempo perdido, eu acho que foi. Doeu tanto, já. Já deu, né? Mas por que continua?
As palavras atravessadas me tomam de assalto no meio da madrugada, no meio da paisagem fixa, no meio das estrelas, na luz da lua, na calçada, na grama, no mar. A voz, os gestos, até a pose. O olhar. O riso incontido, a timidez, a mão no rosto pra esconder. Tudo isso soa romântico, mas é patético. É ridículo. Eu não devia mais lembrar, mas por que eu lembro tanto? Eu já estive tão mais envolvida, tecnicamente, e nada do meu passado tem este efeito devastador. Como eu posso nem sentir as rochas no meu caminho, mas sinto as do caminho tão mais distante, tão fora de mim, tão o “antigo do que sou”.
Não que eu não tenha meus momentos de paz ouvindo “Daqui desse momento, do meu olhar pra fora, o mundo é só miragem... A sombra do futuro, a sobra do passado, assombram a paisagem” enquanto olho pra campos floridos e depois com pasto e depois com árvores frondosas e o horizonte sem nada feito pelo homem. E aí eu penso por que é que o homem veio ao mundo? Já viu algo de bom que ele faça? O ser humano é péssimo. Faz mal. É mau. Conviver em sociedade é um caos e eu acho que não estou pronta, mas onde é que eu me escondo? Esqueceram da gruta abandonada onde eu pudesse me enfiar. E tapar a porta. E viver no escuro, porque tudo que ilumina também traz luz à memória e ela tem que passar uns tempos no escuro.
Eles dizem que pra quem espera o sol chega, que a parte mais escura da madrugada é logo antes de amanhecer. Mas quem disse que eu quero o sol? Quem disse que eu quero ver? Talvez eu tenha pego toda essa sujeira e enterrado debaixo de um pé de árvore que nunca nasceu, nunca deu frutos. Está morto lá em cima do lixo. E de vez em quando o vento passa e tira um pouco da terra, e uma folha rasgada sobressai. E eu vejo. E aí essa sensação horrível de confusão e desespero me toma de um jeito que meu corpo se recusa a comer, a descansar. Meus olhos não se fecham mais por medo da imagem que possa se formar no fundo deles. Minhas mãos tremem porque palavras escritas também não podem expressar. E minha voz rouca, falha. O mundo falha. O mundo pára de girar, e a manhã continua, pra sempre.
Eu não quero a luz!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A arte de não ler

“A arte de não ler é muito importante. Consiste em não sentir interesse algum por aquilo que está a atrair a atenção do público numa determinada altura. Quando um panfleto político ou eclesiástico, um romance ou um poema estão a causar grande sensação, não devemos esquecer-nos de que quem escreve para tolos tem sempre grande público. Uma condição prévia para ler bons livros é não ler os maus: a nossa vida é curta.”

Arthur Schopenhauer, in “Aforismos”

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Dia dois de setembro,

E tudo que ele não foi.



Esperou com a pontinha dos pés no chão de modo que, empenhando-se o suficiente, alcançasse as estrelas com as mãos. De uma delas ele fez um anel e seu dedo passou a carregar o símbolo do impossível que em breve seria real. A brevidade do tempo que sopra como o vento e já se foi, porque era esperado demorou a passar, e houve espaço para medos, angústias, expectativas e lágrimas. Houve alegria irradiante, houve a perda do chão.


Os dias se arrastavam, longos. Tic -------------- Tac. Tic ------------------------------------------- Tac. Mais uma noite, uma a menos. A lua acompanhava todos os movimentos. Sumia e voltava para checar sua cria. Ela continuava lá, todas as noites, esperando que a lua mudasse logo, voltasse logo, sumisse novamente e então chegaria o dia. O esperado abraço no banco, vento, luz, concreto, cheiro, mãos, toque, palavras, “a nossa estrela está linda hoje”, brilho, ofuscamento, noite, silêncio.


Tic ------------------------ Tac.


Tanto se passou e agora não haveria mais romantismo, estrela, lua, noite, vento, toque, boca. Havia apenas silêncio. As luzes e a escuridão passavam pelas janelas e ninguém se levantava para observar. Não havia mais nada para se ver. As três letras de “fim” substituíram as quatro do “amor”. Paredes se amontoavam espremendo qualquer intenção de respirar, mas não havia teto. Também não havia céu. Era um imenso vazio e o universo se expressava como um ponto de interrogação que jamais encontrava um “porque”.


A confusão e a agonia, a tristeza devastadora, a busca pela vontade de sonhar perdida.


Mas já não existia teto aqui.


Veio o fim do inverno e as folhas secas do chão foram levadas com a harmonia do ar novo entrando pelos pulmões. Ainda havia dança, mas eram outras as vibrações. E elas remodelaram e reconstruíram o teto. Ele apontava mais longe, desta vez.


Voltou a espera como o eco de uma caverna escura.


No entanto eram apenas reverberações, ela já não existia mais. Nada mais existia, nem os sonhos, nem as palavras, nem o silêncio. Só o teto.


E agora procuramos nos entender, reinventar, descobrir o que fazer com o anel de estrela. E se houver outra caverna, estaremos lá antes que só sobre o eco. Antes que o futuro funda-se ao passado restando apenas a intenção que hoje resiste, insiste, tão destruída, com os pedaços colados, frágil, bela. Ainda me surpreendo com a intimidade revelada na sutileza do comentário sobre um gosto já tão sabido que reconhecê-lo é natural.





Simples - Lya Luft
"Porque entre o sim e o não é só um sopro,
entre o bom e o mau apenas um pensamento,
entre a vida e a morte só um leve sacudir de panos
- e a poeira do tempo, com todo o tempo que eu perdi,
tudo recobre, tudo apaga,
tudo torna tão simples e tão diferente."



sexta-feira, 19 de março de 2010

A Felicidade



Esses dias eu parei pra pensar naquela frase “a gente só dá valor àquilo que perdeu”. Isso porque eu perdi algumas coisas, como ser acordada no meio da noite e de manhã, muito antes do despertador, por aquela voz de sono chamando meu nome, às vezes ainda dormindo, dizendo um “eu te amo” sussurrado ‘no meu ouvido’. Perdi de sentir saudades de cinco minutos, pra passar a sentir as saudades de um dia todo sem tempo, de ausência, de desencontro. E mudei: ao invés de, como antes, reclamar porque perdia o sono, agora tudo o que eu queria era ser acordada na madrugada.


Na verdade, isso não é dar valor porque perdeu, mas sim inventar um valor para aquilo. O tempo que passa faz esquecer os aspectos ruins e melhora os bons. 


Eu ainda vou ficar puta quando voltar a ser acordada de madrugada, passar a aula com os olhos lacrimejando de sono, ficar a tarde toda com os olhos ardendo no trabalho, estudar à noite e cair na cama às nove. Mas o que a perda – ainda que temporária, e, ainda bem que apenas temporária – disso me fez ver é que toda a parte ruim vale a pena se eu tiver a parte boa. Fim. E que eu mude de opinião depois.


Fiquei pensando se tivéssemos sempre a chance de recuperar o que perdemos, logo que chegássemos à conclusão de que aquilo realmente tinha valor. Quantas decepções. Por isso, muita gente prefere inventar que tudo seria perfeito se houvesse outra chance. Principalmente no amor. Preferem pensar que os erros não seriam cometidos e que, caso fossem, não teriam mais tanta importância. Acham que devem perdoar o que já foi perdoado tantas vezes e ainda assim não funcionou. Criam uma ilusão, inventam um passado perfeito que nunca existiu e passam a viver guiados pela esperança de um dia voltar àquele lugar imaginário, feliz.


Cheguei à conclusão de que a felicidade só está presente nas lembranças e é só lá que ela pode estar. Em raros outros momentos, poderemos respirar fundo, fechar os olhos e pensar: estou feliz. Raríssimos. Todos os outros momentos felizes passarão sem que sequer notemos, mas, pelo menos, estes de que sequer tivemos consciência, realmente existiram. A maioria da “felicidade” que vamos lembrar nunca existiu, nós a criamos para darmos sentido a algo que nunca o teve, mas não admitimos.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Já sei namorar...

E se o mundo fosse um quebra-cabeça? Desses que a gente põe as pecinhas onde quer, só brinca quando ta entediado, e, se enjoa, embaralha tudo de novo e recomeça? Nem sempre há chance de começar do zero, então é melhor não errar. Brincar de viver quando ta entediado? Viver já é quase sempre um tédio por si só HAHA.
Enfim, tenho visto coisas acontecendo. Tem gente, por aí, brincando de quebra-cabeça. Enjoa e embaralha tudo, e as pessoas em volta que se virem pra encontrar de novo os seus pedacinhos e reconstruir sua vida toda, sem o resto das peças. Ou, pelo menos, sem uma delas, que é, muitas vezes, a mais importante.
Ninguém se apaixona quando quer, nem sempre se encontra a outra metade. Às vezes, dá a sorte de encontrar. Outras vezes, inventa. Nessa brincadeira, acaba arrastando gente que não ta brincando. Aí vêm os corações partidos. Tenho visto muitos desses por aí.
As pessoas não são as pedrinhas com que você brinca jogando “escravos de jó”. Talvez não dê pra prometer a eternidade, talvez o amor seja mesmo uma chama... Mas penso – e só hoje penso assim, depois de muitos tropeços – que não se deve começar algo maduro sem pelo menos tentar fazer com que seja pra sempre.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Vai nascer um dia bom.

Se havia um botão que me ligava ao mundo, foi hoje que o desliguei. Nem músicas, nem o sopro do vento eu não queria ouvir. Nem minha respiração abafada debaixo do cobertor. Havia apenas uma cama e lágrimas molhando o travesseiro e eu saí. Batendo a porta, apertando o botão. Sim, eu desliguei.
Nada como a calma que os passos trazem, a certeza de que pelo menos eles não me trairão. De que, com eles, eu chego a algum lugar. Qualquer lugar, longe daqui. Eu desliguei o mundo e ele sumiu de mim. Da minha visão. Eu não queria mesmo ver. Se havia pessoas pela rua? Não me dei conta. Era feriado, não devia haver. Não ouvia murmúrios, só o da chuva fina na minha pele. Não sentia o frio que o meu corpo anunciava tremendo. Se eu pudesse manter os olhos fechados...
Guiava o meu caminho pelo cheiro. Tinha cheiro de fuga. Eu fui sem nada, só com as chaves - que eu deveria ter perdido por aí, em algum riacho, para nunca mais ter de voltar.
O rio podia ter levado essas chaves de uma casa à qual já não pertenço. Podia ter-me trazido outras, as daquela que eu vislumbro em todos e cada um dos meus sonhos, sempre diversos, sempre com o mesmo sentido, sentimento, vontade. Sim, eu sempre tenho a mesma vontade, mas o rio não me traz, nem leva. Ele só passa por mim. Só passa...
O sol já ameaçava sumir com a sua última meia-luz e eu ainda estava sentada na beirada do barranco, e o rio indo embora, enquanto eu esperava que ele voltasse. Era o fim de mais um dia, mas não da espera. E a lua também não quis aparecer. E o medo do escuro me fez voltar pra onde aquelas mesmas chaves me levariam sempre, enquanto ele não vem.
Já de novo embaixo das cobertas, sussurrando que eu queria que nascesse “um dia bom, feito pra lembrar de nós”, vi que os relâmpagos surgiam no meio da escuridão, num clarão no meio das nuvens pesadas, numa fração de segundo no meio das estrelas. Numa promessa: ta pra chegar o dia em que eu vou poder “tocar o céu e alcançar o fim do mar”.




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Clareia...

Ela acordava todos os dias como se cada dia fosse mais um, mais um daqueles, que ela sabia que não estaria pleno. Ela fazia, todos os dias, tudo o que fazia sempre, sem querer fazer. Punha os pés no chão como se do chão fosse sair a força para caminhar. Mas era frio e inerte. Como as pessoas.
Ela abria a porta querendo que houvesse outro motivo para fechá-la, senão o cansaço de mais um fim de tarde. Mas a porta se abria e fechava atrás de si. Já nem enxergava o sol nascendo lá no comecinho da linha do horizonte, já que não elevava o olhar até lá. Já não procurava mais nada no horizonte, já não via...
E assim iam os dias, sem um “bom dia especial”. Eram algumas das mesmas pessoas, mas nunca por muito tempo, porque não suportava gente demais por tempo demais. As músicas sequer faziam sentido. Poemas? Pura besteira. E mentira. Ela acreditava que coisas bonitas, ditas, só podiam ser falsas, porque nunca se imaginou sentindo o que a Florbela Espanca dizia em Fanatismo. Até que, um dia, sentiu.
Um dia, passou a acordar antes do sol, porque precisava vê-lo nascer com alguém. Com ele. Que já não havia outro “ele” no seu vocabulário, só aquele. Que, com ele, a música “Nascente” precisava fazer sentido. Que era ele a “estrela do deserto a me guiar”. A última estrela do dia, a última palavra q ela ouvia, e a primeira, e o tempo todo ela imaginava a sua voz, quando estava mais longe.
Coisas que ela nunca disse. Aquele poema que guardou desde os quatorze anos, sem que ninguém jamais merecesse, ela o entregou, junto com as chaves. E as músicas que ganhou, junto com as lágrimas de amor. E foi por amor que ela se esqueceu do mundo, das mentiras que há nele, da frieza do chão e das pessoas. Já sabia que não precisava mais mentir, e o gelo derreteu no sol. Foi porque ela criou um universo só pra eles, com a estrela do deserto que os guia, com a manhã que clareia, fazendo com que o sol esconda a estrela, sabendo que, quando ela voltar, ouvirá a última frase do dia - dele pra ela: eu te amo.



...

"Chega mais cedo, amor
Eu finjo que eu não esperava"

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Risco.

Hoje eu quero falar do medo.
Todo mundo já leu o texto que diz: “nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar”. Mais clichê que isso, só o que eu vou escrever agora =)
Enfim,
Eu sempre tive medo. O maior deles foi de ficar sozinha. “(Você) nunca chorou sozinha num banheiro sujo”? Eu já. Sequer me lembro dos motivos pelos quais eu chorava, mas o que me marcou foi que não havia quem segurasse a minha mão e mentisse que tudo acabaria bem. Eu costumo me esquecer de brigas, discussões, confusões - é um mecanismo de defesa. Lembrar dói e dá medo de errar de novo. Mas ninguém pode ser movido pelo medo de que as coisas aconteçam da mesma forma, novamente. Porque nada, nunca se repete. Existem outras chances. Existem outros amores.
Medo de se decepcionar, quem não tem? Mas esse é um medo real. As pessoas realmente decepcionam. E que bom! Melhor que se vejam os defeitos cedo, se avaliem as circunstâncias, se decidam as escolhas. A decepção não foi feita para ser temida - ela deve, ao contrário, ser esperada. Sempre chega. Arrisco dizer que é até boa, por sempre trazer consigo certa clareza: você enxerga as coisas de uma forma como nunca viu antes. Fria. Dolorida. Como realmente são quando não se está fazendo juras de uma paixão eterna, amizade eterna... Se até “meus heróis morreram de overdose...” o que esperar das pessoas comuns? Eu sempre achei, e até já disse aqui no blog, que decepção se mede pelas expectativas que você põe na pessoa. E defendia, antes, que não se deve esperar nada, mesmo. Mas, hoje, não sei. Se eu não esperasse nada dele, como poderia me apaixonar? E de todas as coisas que esperei, a maioria existiu.
Criar expectativas é o que move as engrenagens da paixão. Erros e acertos são conseqüências, mas quem determina o ponto de equilíbrio sou eu. E eu sei bem até onde posso me machucar, se os sorrisos são infinitamente mais intensos que as poucas lágrimas... “Se o amor é o corte e a cicatriz, pra quê tanto medo?”
O medo é sempre todo errado. Tem gente que deixa o amor passar - e eu já vi acontecer - porque não sabe arriscar. Porque pode perder. Insegurança, talvez imaturidade. Talvez a hora errada. Eu cometi um erro monstruoso, que me fez pensar em “nunca mais”. Foi o medo. Aprendi a esperar que ele se esvaísse nas nuvens de uma quase-certeza, que a cada dia se prova mais certa. Talvez o remédio para o medo seja o tempo.
Mas há um que não se cura, o que eu disse no começo. Me amedronta a idéia de ficar sozinha. Eu sei que posso e já até consegui - mais ou menos, porque me enganava, inventando amores de mentira só pra satisfazer a minha vaidade. Só para poder fechar os olhos em paz, antes de dormir, e pensar que talvez, em algum momento, alguém pudesse entrar pela porta e segurar minha mão. Não que seja bom se iludir, mas às vezes é uma saída...
Mesmo que haja medo, eu nunca vou me impedir de pular do alto, ver como é lindo lá de cima. E, se, porventura, dessa vez, eu não cair, talvez eu tenha aprendido a ser feliz. Vale o risco.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Eu sei que vou te amar...





Esse vai ser um texto curto porque:
1-      Eu to sem tempo
2-      Eu to sem saco.

Sem tempo nas férias? Pois é. Sem saco? HÁ é o meu normal. Enfim,
Outro dia eu li um livro chamado “Eu sei que vou te amar”. É baseado num filme cult, antigo, década de oitenta. Ainda não vi o filme, mas estou baixando. O livro é escrito pelo Jabor, num estilo meio complicadinho, com uma história que ainda não me cabe na cabeça... Mas o que ficou na minha mente foi a música do Tom e do Vinicius, mesmo que não esteja escrita no livro.
Eu não sei se alguém pode dizer que vai amar por toda a vida. Há tantos descaminhos. Eu prometo apenas amar agora, e que esse agora se estenda pelo sempre, ou não. Querendo que sim, desejando, esperando que sim. Precisando que sim. Eu não posso evitar que em cada texto meu haja a súplica para que o amor dure por toda a vida, que segredos sejam revelados e que a verdade transborde a cada palavra: eu o amo. “E cada verso meu será pra te dizer...” que eu não consigo escrever algo qualquer sem deixar que se derrame um pouco do “passe pela vida comigo”. E que as pessoas percebam o que tiverem que perceber, eu não me importo. São assim meus versos, e isso é o que eles dizem.
Voltando a falar do livro, ele se encaixa na estrofe seguinte, que fala da ausência e a volta que a apaga, enfim, vocês conhecem a letra. Prefiro que não haja ausência alguma, para que não haja voltas, para que nada precise ser apagado, porque nada se apaga totalmente. Nem sequer um erro minúsculo, quanto mais uma ida. “Vou embora” é carregado de um sentimento: é definitivo. E que os corações aflitos se acalmem, porque é definitivo. E que ninguém grite, rasteje, chore. Que a porta se feche atrás de si e que você nunca volte a olhar. Porque não há volta. Se houver volta, já houve a mágoa da porta fechada e do coração aflito que teve que aprender a se acalmar, enquanto chorava até dormir. Sou contra as voltas, por mais doloridas que sejam as partidas. No livro ela volta, diz centenas de vezes que vai embora, ele também, quando um vai, o outro grita, o um volta. Como acaba a história? Adivinhem. Chega-se à conclusão de que nunca deveriam ter-se reencontrado. Concordo. Só o Jabor pra dizer isso de uma forma “não-escrita” e tão clara.
Já os três últimos versos da canção me definem melhor. “...Viver a espera de viver ao lado teu...”, mas que essa desventura não seja eterna, senão de que vale? Não me importo com as lágrimas se depois delas vier o regozijo. Se, por elas, a felicidade for em breve definida e durar “por toda a minha vida”. Se a espera tiver fim... E terá.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O Melhor Lugar

Fechou a porta atrás de si, como que para trancar-se em si mesma. Seu mundo parecia-se com o tamanho do quarto, porquanto não fazia mais diferença estar sozinha ou cercada de gente, dessa gente que não entendia nada... Melhor isolar-se. Só. Era só que ela estava, era só que ela se sentia. A sós ela e o quarto que parecia diminuir de tamanho, as paredes se apertando contra ela. Ela, sentada no chão frio, num canto. Parada como um grão de poeira, esperando ser jogada de lá para outro lugar qualquer. Não faria diferença, qualquer lugar.
Parada, esperava. Estática, serena. Havia parado de pensar. Todos os seus amigos com problemas e era sempre ela a que dava as soluções. Aquelas situações tinham respostas, mas ela se encontrava num beco sem saída, uma encruzilhada, jogando cartas a esmo, esperando para dar o próximo passo. À beira de um abismo, qualquer novo passo é um perigo, e ela já não estava disposta a arriscar. Delegara a segurança de sua cama a outra pessoa, que não era mais ela. Ela, no chão. Não se deitaria até se encontrar, e esperava.
Deixou que acabasse a bateria do celular, deixou que as ruas da cidade iluminassem lá dentro, deixou as portas trancadas, deixou um silêncio gelado tomar o lugar. Arriscou um acorde no violão, mas preferiu o silêncio.
Não se levantou para ir até a gaveta, não queria despender esforço algum na empreitada, foi se arrastando uns poucos metros. Lá dentro, procurou por algo que lhe pudesse trazer um pouco de paz. Um álbum de fotografias que não quis abrir. Mexendo mais, uma rosa amarelada pelo tempo que se transformou num passado longe e cheio de arrependimentos. De olhos fechados, suas mãos se guiavam sós por entre os entulhos que ela achava que deveria manter, ou que não tivera coragem para botar no seu lugar: o lixo. Finalmente, uma caneta. Retirou da gaveta, junto com um caderno antigo, onde descrevera suas primeiras paixões. Sua adolescência impressa naquelas folhas deram um ar de saudades. Saudades de quando não sabia amar e qualquer desentendimento era a abertura para começar outra aventura qualquer. Saudades das aventuras que nunca deixavam marcas. Saudades da inocência, dos livros e das bonecas. Das fofocas sadias de crianças que não conhecem a malícia. Ouvira, outro dia, duas menininhas discorrendo sobre como chegar à casa de uma terceira. Era a voz da pureza. Era o que ela já não sabia fazer.
Abriu, então, a primeira folha em branco do caderno, já no fim. Escreveu algumas dezenas de palavras desorganizadas e sem nexo, que queriam resumir o fato: eu cresci. Ela percebera que ter medos fazia parte de ter compromissos, que ter compromissos fazia parte de ser adulta. Que seu mundo não contaria mais com a segurança de uma cama quente, um copo de leite e um sonho que faria o amanhã parecer melhor. Que, agora, ela realmente desejava as coisas, que não podia contar com o mero acaso para que elas acontecessem, como sempre fez, simplesmente por não se importar. Que, agora, ela se importava. Que alguém também se importava com ela, e que, por não haver mais ninguém no mundo que tivesse todas as respostas, lhe adivinhasse as vontades, lhe segredasse sonhos e compartilhasse os mesmos desejos, ela não estava disposta a deixar-se ficar num chão gelado, esperando a solução.
Trancou novamente a porta atrás de si e saiu. Foi em busca daquele que seria “o melhor lugar”, e ela sabia exatamente qual era o caminho até lá.






Enfim, encosta seu barco em mim que o sol já se pôs
A sós, o mundo termina na fina fronteira dos nossos lençóis
Em nós, espalham-se os laços, desfazem-se os nós
Sonhamos paisagem, compramos passagem e nunca voamos pra lá
Enfim, passeia sua boca em mim até me calar
Aqui ainda parece o melhor lugar

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Encontro.

O quarto tinha cheiro de reencontro. Cortinas brancas que se deixavam levar pelo vento do fim de tarde, aumentando e diminuindo as sombras. Debaixo da janela, apenas uma mesinha com as coisas de que ela precisava: ipod, celular, abajur para ler à noite. Uma cama de casal e um guarda-roupa, mais nada. Mas a cama tinha segredos e lá dentro do guarda-roupa também. O violão, cds e livros viriam depois, assim que as coisas estivessem mais ou menos organizadas, mas música preenchendo o ambiente já começava a fazer falta. Fazia dois dias que ela havia se mudado para a SUA casa. E não havia sensação melhor. Aliás, ela ainda não havia experimentado sensação melhor, mas sabia que era só uma questão de tempo até que algo realmente maravilhoso acontecesse. Era o que ela esperava há o que parecia ser uma eternidade. Corações apressados vêem o tempo passar mais depressa quando estão juntos, mas é um paradoxo o tempo que não passa quando ainda precisam se encontrar.
E assim, com borboletas por dentro e por fora, ela se sentava na cama esperando que as tardes chegassem e se fossem, que as luas mudassem, que alguma estrela desse o sinal de que ele já estava chegando. Ela não sabe dizer ao certo quantas tardes foram, não sabe sequer como tudo começou, mas agora era como se a vida dela estivesse enlaçada à dele, tanto que não havia expectativa, plano, decisão que não o incluísse como protagonista da história. Tanto que seus planos eram todos para ele. Tanto que ela se entregara e repetia todos os dias “eu sou tua, só tua”. Tanto que ela nem pensava mais se valeria a pena, porque sabia que, sem ele, não havia mais nada.
Numa dessas noites, a estrela que ele lhe dera brilhou mais forte. Ele estava chegando. Ela sabia. Tentou permanecer acordada, mas o dia tinha sido particularmente difícil, e ela acabou dormindo embalada pelas músicas tão lindas que havia ganhado dele. Como todas noites, era nele que ela pensava até adormecer, era ele quem ela via, era com ele o seu sonho.
E, no meio da madrugada, com o coração disparado pelas batidas na porta, ela foi ao seu encontro. Ele, com as malas já no chão, só conseguia olhar para ela. Seus olhos brilhavam e diziam tanto, com tanta verdade, que dos dela escapou uma lágrima. Ela, então, depois de sabe-se lá quanto tempo sem reação alguma, conseguiu estender a mão e tocar aquele rosto, com o qual ela tanto sonhara. Com os dedos, desenhava cada curva, das sobrancelhas, olhos, boca, queixo, como se assim, finalmente, ela pudesse saber que ele era real. Dando-se conta disso, não conseguiu conter o sorriso. Ele era real, e era dela. Ela pegou sua mão e pediu-lhe que entrasse e, ainda na sala, deslumbrados com a intensidade do momento, se beijaram como se com isso selassem o encontro de suas almas, que já estavam juntas há tanto tempo, conheciam-se uma à outra mais que a si mesma, mas os corpos ainda estavam se descobrindo, um colado ao outro, trêmulos, mas mesmo assim se sabiam e se guiavam sem hesitação.
O primeiro beijo, que pode ter durado horas ou minutos - não se sabe ao certo, porque o tempo simplesmente havia parado - foi interrompido pelas lágrimas de olhos indescritivelmente felizes. E, os dois, incrédulos porque jamais imaginaram que pudesse haver um sentimento assim, capaz de deixá-los tão plenos um do outro, permitiram que a alegria se irrompesse num sorriso e cada um se encontrou no olhar do outro, na alma do outro, na vida do outro. E sabiam que era esse o melhor lugar, era o lugar ao qual pertenciam. Sabiam que passariam o resto de seus dias um ao lado do outro, que a vida seria leve, mas intensa em alguns momentos. Que as alegrias viriam juntas e que tristeza alguma duraria por tempo demais. Que precisavam se casar e assim fariam. Que dormiriam abraçados e seriam imortais. Que tudo já havia sido combinado, inclusive, já combinaram também que um faria ao outro mais feliz do que se podia imaginar e, desde o instante em que se encontraram, sabiam que tudo sairia melhor que o combinado, pois agora que estavam juntos, poderiam suportar tudo e, nada, nunca, impediria aquelas vidas de seguirem juntas o seu caminho.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Reaprender a sonhar


O que mais eu poderia supor de alguém
Que por tantas e longas vezes
Prometera me fazer feliz?
Que me deixara em prantos
Por entre quimeras, esperando
Tentando desvencilhar o real do imaginado
Ou o imaginado do real
Ou quanto disso tornar-se-ia realidade.
Que tecera comigo todos os meus passos
Venceu caminhos, superou abismos
Que, antes de dormir, escutava a nossa canção.
Nada mais eu haveria de querer
Além de dormir presa nos braços daquele
Que por tantas e longas vezes
Prometera jamais soltar a minha mão.

O que eu poderia supor?
Talvez que isso não passe de caminhos imaginados
Que simplesmente não vale essa forma de amor
Porque trata-se de trilhas sem fim, sem conquistas

Ou talvez eu tenha aprendido a voltar a sonhar
Sem me perguntar se vale a pena, porque já valeu:
Foi ele quem me tirou os pés do chão
E o mundo visto daqui, de cima das nuvens, é lindo. E só nosso.





sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Último dia do ano.

O mar e sua revolta me lembram o que eu tento esquecer: as ondas de dentro do meu peito, que vêm fortes, com o vento, querendo saltar pra longe de mim. Não me cabe tanta angústia. Hoje é o último dia do ano, o que me faz relembrar o que passou. Me recordo exatamente esta hora, um ano atrás. Éramos outros. Ainda somos os mesmos, mas um pouco mais feridos. Eram sorrisos que hoje são substituídos por outros, com outras causas, outros motivos, outros espectadores.

Há um ano, era outra praia, mas o mesmo mar, com outras nuvens, as mesmas ondas. Os mesmos medos. Outros desafios. Outras tantas dúvidas, diferentes das que me corroem hoje, porque eram outras certezas. Hoje não há certeza alguma, apenas sentimentos... E eu espero. Não sei se acontecimentos ou o fim. Fim do que nem é ainda real.

Passei a tarde no quarto - a paisagem não me convidou, por hoje. Eu, meu violão, metade de um livro desistido porque pensamentos me tomaram de suas idéias. O frio era dentro do meu corpo, e por fora um vento ríspido me levava a ficar em encolhida, como um bebê desprotegido das coisas que vêm de dentro. Pensei em você. E as nossas músicas tocavam repetidamente, como trilha sonora desse temporal de medos.

A insegurança é quem me faz sentir sozinha, junto com uma dose de realismo. E aqui vinham os dois juntos, entrando porta adentro e me tomando num suspiro. Deixo o violão mudo por uns tempos, até que os acordes se encaixem em si mesmos, que a minha vida se encaixe na sua, ou retorne a mim. Talvez não haja amanhã, nem acontecimentos, nem fim, nem começo. A volta é sempre a mesma, e não conseguir mais ficar sem você pode ser mesmo uma constante, que não depende de mim alterar. Só espero que a chuva passe, a calmaria lá no mar traga pelos meus olhos alguma calma.

Hoje é o último dia do ano, e a companhia que eu esperava não está aqui, nem perto dos olhos, nem perto do coração. Há um ano, havia alguém ao meu lado, mas a solidão era a mesma de hoje, e a de sempre, porque simplesmente não há nesse mundo - ou à minha vista - quem me complete.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

É o que sempre muda.


Eu tive medo, e até perguntei demais. Nunca foi meu sonho andar por caminhos desconhecidos, tentando adivinhar quais seriam os próximos passos de alguém. Eu sempre fui inconstante, mas meus planos têm alguma constância, e se os sentimentos vão e vêm, eu sei bem quando a decisão é definitiva. Eu gosto de conhecer o amanhã e, mesmo que eu não espere a sua companhia, você não podia tê-la prometido - porque eu acreditei. Me acostumei a você, à sua voz me acordando, seus dedos enrolando meus cabelos, um beijo de bom dia, não sair da cama até que alguma urgência nos arrancasse de lá... Antes, você não queria fugir. O que mudou é o que sempre muda, você me saber sua.

Me sinto alagada, sem ter por onde escapar. Você me prende, quando me deixa à sua espera, quando me solta, livre. Quando volta, ciúmes. Amor renovado que vislumbra promessas, estas, nem precisam ser ditas. Palavras não se comparam aos motivos que tenho para acreditar. Mesmo assim, você diz. Eu acredito mais uma vez e crio pretensões, mas será que as suas são reais? Quando os devaneios recomeçam, olho para o lado e lá se vai você, mal posso enxergar suas mãos dizendo adeus, e olhos molhados me dizendo para esperar. Mas sei que estão lá, ou quero que estejam... Não importa, sim, estão sim. Você me disse. Ah... Aqui estou eu, voltando às promessas.

Eu não consigo me libertar, porque você ainda se mantém meu mesmo na ausência, seus sonhos entrelaçam-se aos meus quando se encontram, num tempo diferente desse aqui, que não passa de dias que se demoram a passar. Dias estes que ainda não fazem sentido, enquanto não houver sua mão na minha. Quem sabe os segundos se arrastem rumo ao eterno, depois de selados nossos juramentos. Espero suportar essa saudade e ainda sentir suas mãos nos meus cabelos com o sussurro de bom dia, por todas as manhãs, até você voltar.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Momentos

Eu caminhava a passos lentos, distraídos, como quem sabe onde encontrar-se com o destino, mas deixa-o lá, esperando a hora certa. Milk shake numa mão, na outra uma sacola com discos que havia acabado de comprar. Nada melhor do que discos novos para acabar com os velhos sentimentos. Sentia apenas o ar quente no rosto; nos meus ouvidos, Isabella Taviani cantava suavemente - talvez houvesse até uma pitada de resignação na sua voz - que tinha mais o que fazer do que se enganar. Eu sempre fui vista como realista, alguém que não tem medo do futuro simplesmente porque não espera nada dele... Mas isso é apenas uma casca. Um modo de me defender das decepções que eu sei que surgirão. Não me engano para não me arrepender de ter esperado demais. Nada de anormal – as pessoas decepcionam, os sonhos mudam de lugar. De vez em quando, temos que varrer a casa, achar uma foto no canto da gaveta, colocá-la de volta álbum de retratos, sorrir pra ela e lembrar que esta simples lembrança não mais machuca, porque é assim que as coisas são. Todo corte que sangra e dói vira uma cicatriz. Pode demorar demais, ou então pode acontecer de ela simplesmente não ser desejada. Algumas pessoas não conseguem conviver com as marcas do seu passado, simplesmente por considerá-lo todo errado... Mas só porque as coisas deram errado no final, não deve querer dizer que foi tudo um erro... Erros são pela metade. Se fosse tudo um erro, não haveria sorrisos.
O que é mágico na nostalgia é saber que há uma lembrança boa escondida em algum lugar do passado. Ela é um misto de sensações... Sentimentos bons e ruins que se fundem num só: ter existido valeu a pena.
Enfim... Estava lá eu divagando pelas paredes da memória quando percebi que meu olhar acompanhava o carteiro. Ele devia passar por lá todos os dias, e certamente não notava as rosas no gramado da casa onde entregava a correspondência. O meu dia era diferente, era uma promessa de mudança de sons e conseqüentemente de ares, de humor, de pensamentos. Já ele, fazia seus movimentos como se fosse máquina, sem precisar pensar em nada. Ou então pensava na filha, na esposa. Talvez na amante. Talvez no limite do cartão... Quem é que sabe? Tantas pessoas interessantes podem passar por você, mas você não teve tempo de saber. De casa em casa, carta em carta. Cartas contêm segredos. Há coisas que só cartas podem dizer.
Enfim, chegou a vez de uma casa com o portão branco, daqueles vazados, um jardim bonito, sem carro na garagem – deviam estar todos trabalhando, estudando, viajando... E um cachorrinho minúsculo. O som alto me impediu de ouvir o latido, mas meus olhos o captaram. O carteiro simplesmente parou e ficou olhando para o cachorro, imaginando uma forma de enfiar logo a carta na caixa de correio, a pressa devia ser grande, mas não podia arriscar a mordida. Claro que uma mordida de um cachorro daquele porte não era algo que se pudesse temer, mas... Talvez o carteiro quisesse evitar inconvenientes. Dessa vez, ele teve que mudar o gesto robótico que fazia. Com destreza, primeiro abriu a tampinha com uma mão, olhou para o cachorro, esperou que ele pulasse, já tirando a mão. Assim que o cãozinho chegou ao chão, ele jogou a carta lá dentro. Quase não deu tempo!
Quando dei por mim, já estava quase errando meu caminho. Minha boca esboçava um sorriso, sem que eu tivesse percebido... Eu não conseguia entender o porquê de um sorriso depois de um dia tão complicado como o que eu tivera, nem como eu havia mudado minha expressão sem sequer notar... Mas há pequenos momentos, que na verdade não têm significado algum, não remetem a nenhuma boa lembrança, não trazem uma alegria racional; esses momentos têm nome: vida.