quarta-feira, 30 de junho de 2010

Um momento.

Levantou bem cedo, como sempre fazia, mas com uma ligação a menos. Com os pés descalços desceu da cama e foi até a porta, a passos leves. Parou antes de abri-la, e se perguntou o que fazia ali. Para quê portas que levam de um vazio a outro?

Girou o trinco como quem espera a revelação de um segredo, mas nada havia do outro lado. Não havia sequer a aurora, do lado de fora. Não havia desejos ou solidão. Nada, só o escuro. 

A cafeteira, já acostumada com o jeito de sempre que ela tinha de apertar-lhe o botão, aguardava. Os armários, tateados de um jeito cego que só ela encontrava, já tinham um percurso decorado e o ranger conhecido, que nem fazia diferença.

Sentou-se à mesa e olhou o seu reflexo no fosco do azulejo. O sol começava a despontar no horizonte e seu primeiro raio, ao atingir-lhe a pele do rosto, transformava-se numa imagem distorcida num espelho inconveniente. Ela não queria se ver, olhar-se nos olhos. Ela já se havia perdido e não se encontrava em sua própria imagem. Era apavorante ver-se depois daquilo. Não se identificava mais.

Passou a se perguntar o que seria a identidade. Qual o meio de se perceber as coisas, sensações, e principalmente: qual o começo.

Ela se havia perdido no começo. Eram tantos recomeços, tantas repromessas. Tudo mudava, mas estava sempre igual. Ou tendia a piorar. Ela ainda não sabia qual das partes existia de fato e qual delas foram planos jogados fora.

Desde então, o telefone havia parado de tocar.

Já bebera seu café preto e se levantara sem saber por onde levar os pés. Há tempos não sabia mais. Não encontrava respostas, então preferia viver no escuro a ter que se deparar novamente com as perguntas. Ela não queria mais. Entregara todo o seu ser e já não havia mais nada no pote. Nem raspas, nem restos. Não havia nem ela mesma. 

A identidade se perde quando o futuro já não é o mesmo de ontem. E ela não conseguiu encontrar-lhe novamente. 

Enquanto os pés iam sem ordem alguma do cérebro, os pensamentos vagueavam em meio ao nada que ela se tornara. Um ser humano não vive senão em certezas. Não é, se não houver um "será" certo. Não existe. Ela não existia e os pés pararam em frente à porta de saída. Destrancou. A luz entrou na casa escura e não trouxe respostas ou certezas, mas trouxe uma chance. Talvez um tempo, pouco, mas um tempo. E havia a chance de existir, num instante, num sempre que não é mais que um momento, mas agora não importa, contanto que nesse momento ela seja capaz de SER. E será.

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