terça-feira, 23 de agosto de 2011

Foi mais ou menos assim.

Aí a história foi mais ou menos assim:

Se existia algum lugar em que o universo pudesse promover o reencontro dos dois, só tinha que ser ali. A Mônica folheava um livro sobre a MPB na livraria saraiva, e bem ao lado havia um telescópio daqueles gigantes, tipo sonho de consumo, que a gente nem se permite sonhar. Alguém chamou o seu nome numa voz nervosa. Ela se virou e antes que pudesse ter qualquer reação, antes que a visão enviasse a mensagem ao cérebro, o sentimento ficou ali no olho mesmo e uma lágrima caiu. Grossa, imponente. Como se tivesse esperado uma vida inteira, ali no cantinho dos olhos, pra cair. Como se tivesse guardado tudo o que sentiu e o que doeu para expelir naquele momento, tirar de dentro. Era o Eduardo, mas isso quem dizia era o coração, batendo pesado. Ela mal podia reconhecê-lo. As roupas estavam largas no seu corpo e ele trazia um rosto fino num olhar triste. A pele, muito pálida, deixava transparecer as veias no rosto dele. E no meio do branco, algumas feridas bem vermelhas, que pareciam arder e sangrar de vez em quando. Os dois ainda estavam um pouco distantes, pois nenhum havia ainda reunido forças para caminhar até o outro. O tempo parou por alguns instantes. Podiam ser horas e nenhum deles sequer perceberia. 
Finalmente se aproximaram. As palavras ainda não saíam, mas talvez as lágrimas estivessem traduzindo alguma coisa, e eles não precisaram falar. Ele passou a mão em seu rosto, limpou suas lágrimas e as dele próprias na borda da camiseta, que de qualquer forma, estava sobrando. A primeira coisa que conseguiu dizer foi que não entendia como a tinha perdido. E há tanto tempo.
Tinham-se passado uns dez anos desde o último contato.
Eles foram até uma mesa na praça de alimentação do shopping e se sentaram, um de frente para o outro, vidrados pelo olhar, o mesmo olhar. Aquele de perda, de emoção, de medo. Ele, como sempre, cavalheiro, perguntou o que ela fazia da vida agora e há quanto tempo estava na cidade. Ela tinha chegado ao posto mais alto, ao melhor dos sonhos que um dia ousara sonhar. Se destacara na sua área e agora tinha tudo o que de material poderia querer ter. As realizações foram inúmeras, mas ela se manteve sozinha. Ele nem perguntou, sabia que ele jamais se casaria. Indagou se, se fosse com ele, ela teria se casado. E ela se limitou a responder que existem mentiras que a gente conta num relacionamento, pra fazer o outro feliz. Ambos riram, sabendo que o destino dela era aquele mesmo. E ele? O que tinha feito?
Ele também ficou sozinho, mesmo acompanhado. Nunca aprendeu a lidar com a solidão e foi passando por camas diversas, procurando a si mesmo em qualquer espelho, poça d'água na rua, droga ou o que lhe valesse. Ela se lembrou de que, no começo, não conseguia acompanhar muito bem o raciocínio dele, sempre rápido demais, e que depois que se entrosaram, tudo ficou fácil. E percebeu que eles não estavam mais entrosados, e que a todo momento ela o interrompia, pedindo para explicar devagar o que ele queria dizer. Ela riu com a lembrança, ele também. 
... E conversaram durante toda a noite, enquanto a via láctea, como um pálio aberto, cintilava... Mas ao vir do sol, já era tarde e ela precisava ir embora.
Ele mais que depressa perguntou se ela ainda tinha o mesmo número e onde estava morando.
Ela havia esperado a noite toda por essa pergunta, e já sabia o que responderia. Disse a ele que não ligasse, e como ele nunca teve problemas em obedecer a esta ordem, que desta vez fosse igual. Explicou que agora era sua vez de ser egoista, e que preferia não vê-lo daquele jeito. Preferia não sofrer a dor da perda, novamente, e que parecia ser tão breve...
Ele chorou, mais uma vez. E ela também. Ela pediu que ele ficasse feliz, pois aquela havia sido uma noite maravilhosa e que, para que aquela lembrança se mantivesse intocada e bela como era, seria melhor que eles não mais se vissem. Quis o destino que ela fosse parar lá e que se encontrassem por acaso, e no acaso deveriam se separar. 
Ele insistiu que ela ficasse mais um pouco. Olhou-a nos olhos. Beijou-lhe a testa. Encostou dois dedos em sua própria boca, depois na dela, depois novamente na dele. Disse-lhe que se existiu algo verdadeiro na vida dele, fora ela. Que ele jamais a tinha esquecido, ainda que ela tivesse seguido a vida sem ele. Disse que sabia que ela ficaria bem, sempre ficava. E que ela tinha vivido muito bem, ainda que sem a sua companhia. Que estava feliz, mas que tinha de lhe dizer "eu te amo", assim, direito.
Olhou para o chão por um momento e quando levantou novamente a cabeça, seu olhar estava pesado. Ela se assustou e perguntou o que passava na cabeça dele. A resposta foi que talvez ele só tivesse ficado vivo por todo este tempo, vendo gente que ele "amou" indo embora, só para encontrá-la naquele dia, naquele lugar, e dizer-lhe o que acabara de dizer. Concluiu que agora poderia ir.
Fitou-a nos olhos, pela última vez, e disse: Desculpa, eu não queria que você me tivesse visto assim, mas é a doença, Carolina. Lembra de tudo que é nosso, porque é a única coisa minha que vai ficar. Tudo agora é verde. Sempre foi, sempre foi você. 
Ele morreu nos braços dela.
As pessoas ao redor foram tentar ajudar, ela apenas chamou a ambulância com a voz engasgada, mas sem lágrimas, sem pesar, sem dor. Disse aos outros que não poderia ficar ali e foi-se, caminhando lado a lado com o passado, que insistia em segui-la para todos os lugares. Levou-o consigo até uma estradinha e enterrou-o lá, quando pegou uma carona e foi embora, deixando a vida que construíra naquela cidade linda por lá, porque agora tudo estava completo, e ela podia viver, de verdade, uma vida limpa, em outro lugar.

Um comentário:

Áurea Rabelo disse...

...e foi embora, deixando a vida que construíra naquela cidade linda por lá, porque agora tudo estava completo, e ela podia viver, de verdade, uma vida limpa, em outro lugar.

Isso é liberdade, quando estamos libertos de um sentimento/sofrimento, somos livres pra vida, para o que ela quiser nos enviar ainda. E assim vamos caminhando com os novos sonhos/sentimentos. (L)