domingo, 18 de setembro de 2011

Devaneio


Se levantou bem cedo, mas não antes do sol. Ao abrir a porta de vidro que dava para a sacada, sua camisola branca de renda voou. Um arrepio percorreu seu corpo e ela inspirou aquele ar gostoso de manhã fresquinha. A luz do sol que também despertava lá no horizonte ia refletindo no móbile, que cantava sua doce melodia. Seus dedos passavam pelo móbile que refletia o sol e seus cabelos, que na luz ficavam tão claros, parece que dançavam a mesma dança da bolinha, que batia de bastão em bastão, saudando o novo dia.
Debruçou-se na mureta da sacada e viu o menino na bicicleta entregando jornais. Os passarinhos saíam em revoada quando a velha da casa ao lado começava a varrer a calçada. O bem-te-vi, bem abrigado no alto da árvore, cantava tão alto que parecia ter dezenas deles ali. 
E ela parada, contemplando o orvalho das flores evaporarem ao sol. Ela própria se sentia evaporando, a cada respirar. Olhou para o canto da calçada defronte à pracinha e lá estava ele: o homem com chapéu marrom e a viola na mão. Dormira lá aquela noite, assim como as anteriores. Ele sempre estava lá, era ele. Só ele, com o sorriso mais puro e o olhar mais brilhante, que dormia em paz com o chapéu no rosto para tampar o sol. Ele, que dedilhava as mais lindas canções, todas as noites, só para ela.
Ele sempre estaria lá, proibido, inteiro.
E ela sempre acordaria para respirar o mesmo ar, pois só assim poderia senti-lo junto dela. Tão perto e de tão longe, impossível. Tanto desejo e tanta dor que o passado não esquece. Tanto medo e tanta vida que já se foi... E hoje é só alguém que fica ali, na calçada, em frente, lembrado nas mais doces canções, nos cheiros das manhãs, no sol de todo dia.


Vi um sol nascer
Pelos olhos teus
Me deixei levar
Eu não refleti
Que era a luz dos meus
Refletida em ti.

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