segunda-feira, 5 de abril de 2021

Mais dois anos se passaram

 Como um sopro. 

Desde daquele dia de março, a Terra já completou duas voltas em torno do sol e tanta coisa aconteceu. Deixei muita gente entrar e sair da minha vida, a porta escancarada, que só fechava com o vendaval. Dias se sucediam tão rapidamente inobstante todo o tédio de um céu sem nuvens. Choveu, geou, não sobrou um resquício da grama verde. Tudo coberto de cinzas. O mundo colapsou e eu fui pega desprevenida no meio de um emaranhado de teias. O medo, que nunca deixou meu lado, se aconchegou ainda mais. Houve tardes de desespero, noites de apatia. Dias sem me levantar. Misturei a dor da sua perda com outras tantas que caíam igual tempestade e a calha já não segurava. Perdi essa dor no meio das demais. Esqueci você. Mas só até tocar aquela música.

Fracassei mais duas vezes ao tentar me apaixonar. Nada mais raso do que evitar a reflexão. Passei a pensar pouco, falar pouco. Li algumas coisas, forcei o interesse em outras. Tentei tanto imaginar minha vida ao lado de quem já estava ao meu lado, mas a imaginação não conhece fronteiras e num piscar de olhos já viajava mil quilômetros até você. E por lá ficava.

Um dia, por alguns minutos, o medo não me paralisou e eu te liguei. E, como sempre, foi como se tivéssemos nos falado há poucos dias, como se você nunca tivesse ido embora. Como sempre, quis que você ficasse. Dessa vez, você disse que ficará.

Eu mergulho tão fácil no fundo do seu oceano. Eu fecho com força a porta depois que você entra. É tão bom poder falar de qualquer coisa, não me envergonhar por quem eu sou em todas as minhas falhas e derrotas, porque os olhos que você usa pra me ver vão mais além dos erros. Você sabe quem eu sou, por dentro, por inteiro, conhece cada gesto meu, pausa na respiração, riso no olhar. Nenhuma mágoa se perpetua, nem nenhum ressentimento se mantém, porque quando a gente vê lá no fundo do oceano que somos, lá tem a mesma matéria, mesma alma, mesma vontade, mesma pressa. 

Eu te amo pela tua essência.

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