segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Garota Fantástica

Hoje eu estava na mesa comendo meu cereal com gosto de alpiste e tomando capuccino enquanto a tv da cozinha estava ligada só para se fingir de companhia. O jornal da manhã comentava sobre o ônibus "garota fantástica" que estaria aqui no PR esta semana, selecionando modelos.
Alguém passou por mim e disse que eu deveria ir lá tentar, ele estará aqui exatamente no meu dia de folga e não custa nada, já que eu sou uma magrela igual às anoréxicas que costumam aparecer nos desfiles. Não precisei pensar duas vezes na resposta.


Aí me vem a pergunta: o que faz uma pessoa se sentir realizada se a única coisa "boa" que ela faz pela sociedade é ter o rosto bonito?

Minha tia tem uma afilhada com leucemia. Em Curitiba, a médica mandou a menina pra casa pra morrer, disse que não havia mais nada a ser feito. A família havia gasto todo o dinheiro que tinha com o tratamento, que já dura anos. Uma menina de sete anos que nunca soube o que é brincar fora de uma cama de hospital. Minha tia levou a mãe e a criança pra SP, ver o médico que curou a Drica Moraes. Uma consulta com ele custa R$ 500,00. Só a consulta. Eles não tinham como pagar.
O médico disse que não cobraria nada, nem o tratamento. Que faria todo o possível pra salvar a criança.

Tudo bem que nem todo mundo é médico, e nem todo mundo pode fazer isso pra salvar uma vida.
Mas independente da profissão que você tenha, em algum momento você vai poder salvar, nem que seja um pedaço, uma parte, da vida de alguém. Nem que seja um abraço, uma força, um projeto de uma casa que o engenheiro civil não cobra pra fazer e só assim uma família pode ter um abrigo seguro; uma defesa que um advogado faz de graça e impede um inocente de virar bandido na cadeia; um dentista que impede uma infecção que pode levar à morte, sem cobrar por isso de quem não pode pagar. Sei lá, qualquer coisa!

Mas uma modelo? O que ela pode fazer?

Não, eu nunca me sentiria feliz sendo modelo.

E a morte? Ela não tem solução, se for pra chegar, vai chegar, e nem médico, nem dentista, nem advogado, nem alguém vai impedir. Mas um sofrimento excessivo pode ser evitado. E é o que as pessoas precisam fazer. E uma modelo sorrindo numa capa de revista, me desculpem, não faz ninguém sorrir também.