Se havia um botão que me ligava ao mundo, foi hoje que o desliguei. Nem músicas, nem o sopro do vento eu não queria ouvir. Nem minha respiração abafada debaixo do cobertor. Havia apenas uma cama e lágrimas molhando o travesseiro e eu saí. Batendo a porta, apertando o botão. Sim, eu desliguei.
Nada como a calma que os passos trazem, a certeza de que pelo menos eles não me trairão. De que, com eles, eu chego a algum lugar. Qualquer lugar, longe daqui. Eu desliguei o mundo e ele sumiu de mim. Da minha visão. Eu não queria mesmo ver. Se havia pessoas pela rua? Não me dei conta. Era feriado, não devia haver. Não ouvia murmúrios, só o da chuva fina na minha pele. Não sentia o frio que o meu corpo anunciava tremendo. Se eu pudesse manter os olhos fechados...
Guiava o meu caminho pelo cheiro. Tinha cheiro de fuga. Eu fui sem nada, só com as chaves - que eu deveria ter perdido por aí, em algum riacho, para nunca mais ter de voltar.
O rio podia ter levado essas chaves de uma casa à qual já não pertenço. Podia ter-me trazido outras, as daquela que eu vislumbro em todos e cada um dos meus sonhos, sempre diversos, sempre com o mesmo sentido, sentimento, vontade. Sim, eu sempre tenho a mesma vontade, mas o rio não me traz, nem leva. Ele só passa por mim. Só passa...
O sol já ameaçava sumir com a sua última meia-luz e eu ainda estava sentada na beirada do barranco, e o rio indo embora, enquanto eu esperava que ele voltasse. Era o fim de mais um dia, mas não da espera. E a lua também não quis aparecer. E o medo do escuro me fez voltar pra onde aquelas mesmas chaves me levariam sempre, enquanto ele não vem.
Já de novo embaixo das cobertas, sussurrando que eu queria que nascesse “um dia bom, feito pra lembrar de nós”, vi que os relâmpagos surgiam no meio da escuridão, num clarão no meio das nuvens pesadas, numa fração de segundo no meio das estrelas. Numa promessa: ta pra chegar o dia em que eu vou poder “tocar o céu e alcançar o fim do mar”.
Um comentário:
Eu gosto tanto do seu blog.
Fazia tempo que não passava, e nem me surpreendo em me surpreender com a qualidade crescente de tudo que escreve!
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