domingo, 11 de julho de 2010

Releitura

Hoje foi um dia de retiro. Eu decidi dar a mim mesma um tempo, mesmo porque essas minhas doenças de espírito, que sempre surgem do vilipêndio da minha alma, acabam refletindo na carne o que além da carne se sente.

Pensei em escrever no meu caderno, o qual, hoje mesmo, eu mudei de endereço, esconderijo, um canto mais escuro do guarda-roupa. Mas não, deixe que a intimidade com o mundo se faça neste lugar, assim diz o budismo. Não temo que o mundo saiba meus segredos, se até as cordas frouxas do violão conseguem decifrá-los. E quem as ouve também.

E o coração escrito “eu te amo” que eu havia escondido embaixo de tudo, hoje ressurgiu e eu ainda tive medo de encará-lo por muito tempo. Devolvi para debaixo de tudo e deixei por lá. Não sei o que se faz com presentes de amor. Melhor escondê-los junto com as lembranças. Mas, sabe, eu não consegui rasgar as fotos. Deixei-as escondidas também, em lugar qualquer em que eu não vá encontrá-las por acaso, mas apenas quando estiver buscando lembranças. Quando há paz o suficiente para olhar sem maiores reações químicas. Sem batimentos desordenados. Como hoje.

Mas estas lembranças antigas já estão cicatrizadas pelo tempo. Já mofaram em algum lugar do meu espaço. Já as recentes, estas me rasgam a cada passo em falso que eu tento dar. Como se um pedaço meu tivesse ficado preso na porta que eu tentei trancar e até agora não consegui.

Esta semana é a primeira provação, o fogo que precisa, a partir de agora, deixar de queimar. Saberemos, ao final de tudo, o que se deu, quais as respostas. Ou tentaremos encontrá-las no espaço da saudade ou talvez da insignificância que tudo tivera, mas não para mim. Sempre houve, para mim, algum significado. Ainda agora, existe. E o destino bem o sabe. Ele me encurralou e agora me libertou, fez o seu teste e me aprovou. Sou, agora, livre para buscar algo mais. Como um ser humano que esteve no seu limite, no fundo do mar, mas as ondas mortais que sempre batem nas pedras desta vez apenas lhe reergueram ao ar.

Os livros ficaram deitados ao lado do espelho, do mp3, dos celulares, da luminária. Não consegui concentração no mundo exterior para lê-los. No entanto, a meditação fez algum trabalho, tenho sentido uma maior paz. Foi um retiro, mas não daqueles em que o mundo fica de lado, e sim daqueles em que o mundo deve se fazer presente, com toda a sua realidade, para que eu me obrigue a encará-lo, vê-lo, pensá-lo e para que, talvez, seus reflexos reais caibam em mim. Porque a realidade ainda não me coube.

Eu penso errado e eu sei que está errado. Eu tenho medo de ter coragem. Porque caminhos feitos por mim nunca chegaram ao objetivo, sempre foram interrompidos por algum tronco caído no meio de uma tempestade qualquer. Sempre surgiu o príncipe no cavalo branco que me tirou de lá e levou embora, para um lugar mais confortável, mais fácil de permanecer. Permanecer dentro de si e se fazer pleno nunca foram tarefas consideradas fáceis de cumprir. Esta busca incessante pela paz precisa de tempo, precisa florescer. Nascer de algum sorriso ao ver o sol no horizonte depois de uma madrugada em claro, depois de dias a fio sem me alimentar direito, depois da melodia que não se faz tão pura, depois dos livros jogados pelo chão, depois da impaciência, do tempo, do tempo, do tempo. Depois que o rio passar.





Álvaro de Campos

CANÇÃO ABRUPTA



O céu de todos os universos

Cobre em meu ser todo o verão...

Vai p'ra as profundas dos infernos

E deixa em paz meu coração!

Quê? Não me fica se te opões?

Pois leva-o, guarda-o, bem ou mal

Eu tenho muitos corações

É um privilégio intelectual

Madonna que vais comprar couves

Não te esqueças de me esquecer

O teu perfil dá-me trabalho

Quero (...)

Bem sei, o teu perfil persiste

Amo-te e é triste não poder

Deixar de amar-te sem estar triste...

Se és mulher que em verdade existe

Raios te parta! Vai morrer!