sábado, 19 de fevereiro de 2011

Rasgar a vida

Madrugada.
- Vamos sair daqui?
- Vamos.
- Aonde você quer ir?
- Pro silêncio.
- Mas não tem nenhum lugar quieto... =/

pára o carro.
O banco desce, o vidro embaça, desabotôo um a um dos botões da camisa social que ele relutou tanto em pôr. O vento está frio mas dentro está quente. Minha mente foca em curtir o momento mas meus pensamentos ficam vagando. Alguém mexe na lata de lixo. A luz no topo da catedral pisca. Incessantemente. Outros beijos. A luz pisca. Eu fecho os olhos e tento não pensar... divago. Não estou mais ali. É boca, nuca, mão, mas a minha mente não... meu corpo parece morto, e que eu não mando mais. Pára. Silêncio.

- no que que você tanto pensa, guria?
- nada.

Em nada e em tudo. E em como eu não sei não ser. Não sei ser pela metade. Não sei viver na corda bamba da indecisão, da imprevisibilidade do amanhã. 

Há dez minutos eu estava olhando pra janela, do meu quarto dessa vez. A janela tem uma coisa especial. É como se me libertasse do meu mundo, porque lá fora é outro. Porque se eu olhar pra janela, é como se o que eu disse não tivesse me deixado vermelha, como daquelas vezes no passado... O problema é que hoje a janela só me serve de fuga.
E eu estava aqui, olhando pra fora, e lembrando das vezes que eu contemplava, feliz, o horizonte. Penso no ontem que faz tanto tempo mas ainda está aqui, o trem ainda não deixou a estação. E eu fico me pressionando com esse "dever ser", esquecer, me libertar e seguir outro caminho, mas... É tudo artificial. Talvez tudo que é real sejam apenas erros. Nossos erros foram bons. 

Eu queria, agora, colocar um cd do Flavio Venturini pra tocar e não doer. Eu queria que os versos que fizeram tanto sentido no passado não tivessem feito tanto sentido assim. Eu quero que tudo aquilo que foi tão irreal pare de soar mais real do que o hoje. Hoje eu quero estar só. Sem pensar em nada, sem sentir. Eu quero olhar e entender, saber. Eu quero sentir pulsar, ser dona da minha vontade, poder tudo o que eu desejar. Eu quero que não exista passado e nem que eu seja obrigada a viver um futuro, eu quero um minuto de paz, sem vozes gritando dentro de mim, sem lágrimas que nunca chegaram a cair, sem ter que decidir. Eu quero ser e simplesmente ser, e estar feliz sendo. Eu quero que o que eu vivo não sejam páginas em um livro, mas apenas um segundo depois o outro, um sol nascendo e ele se pondo e depois vem outro. Eu quero rasgar as fotos e as memórias e os poemas. Rasgar minha vida e fazer outra, todo dia.






De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...
 
Cecília Meireles

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