quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Pessoa.

Eu sei que eu disse que não escreveria nada aqui hoje, mas eu vejo que neste momento se fez a minha “revolução humana”. Eu, a partir de agora, 19:26 do dia 22 de setembro de 2010, sou outra pessoa.
Aconteceu uma conversa difícil, cansativa, desenterrando fantasmas do passado, dos sentimentos, de uma vida construída sob égides de areia, cujos cacos eu vi desmoronando, um a um, quando eu não tinha em quê me segurar. Eu sentia medo em voltar a acreditar na voz doce, sentia medo de não conseguir dizer o último adeus. Eu tive medo do único fim definitivo que cairia com o sol esta noite. Nunca havia conseguido visualizá-lo, sequer planejá-lo. Tinha medo do que eu sentiria. Muito medo.
Aliás, medo era um sentimento que me dominava, uma angústia, um receio tão motivado e ao mesmo tempo inexplicável. Eu não sabia o que sentir, e ninguém podia me dizer. Ninguém podia decidir por mim. Era a minha vida caminhando naquela corda bamba. Eram os meus passos. Minha decisão.
E então, enfim, eu decidi que eu merecia que nada disso continuasse acontecendo comigo. Que eu tinha o poder de deixar o passado e preparar um futuro maravilhoso. Que eu podia e devia deixar as migalhas que a vida me ofereceu pra trás, e esperar pelo banquete.
Claro que guardei o aprendizado, e claro que sentimentos bons nunca se apagam, momentos bons nunca se apagam. Recordações, talvez o tempo as leve. Talvez, um dia, as músicas caibam em outro alguém. O tempo é o senhor das lembranças, é ele quem determina as que valem a pena guardar, e as que se perderão com o vendaval do deserto que leva os grãos de areia pra tão longe, que eles se perdem no espaço.
Claro que deixar esta vida pra trás não foi fácil, claro que causou sofrimento, claro que as mãos e a voz tremeram, o queixo vibrou para segurar as lágrimas mas não havia movimento físico capaz de impedir a obviedade do choro. Depois de tudo, o sentimento de perda, de vazio, de “nunca mais”.
Não sei quanto tempo, talvez horas, talvez pouco mais de minutos, me fizeram perceber que eu não suportaria sozinha. Não tudo de novo. E então fui ao encontro da minha alma, me vi no espelho do Gohonzon e orei. Era o meu coração que dizia as palavras, o Mantra Sagrado se espalhava pelo meu espírito. Me atravessava, lento, recobrindo a carne que se mostrava por debaixo das feridas. O choro, em alguns momentos, era incontrolável. As lágrimas caíam e a prece se tornava mais forte, mais intensa, quase um gemido, uma imploração pela salvação.
Terminei o Daimoku me sentindo mais leve, e tive uma conversa com a Lei Mística. Contei a ela que este passo foi o mais difícil, a maior provação pela qual eu tive que passar na minha vida: deixar passar o meu melhor sonho. O vento o levará para longe, até que se perca de mim. Até que não haja mais caminho de volta. Mas a minha perspectiva mudou, depois de tudo isso. Agora eu vejo que eu virei a página, e nela há tantas folhas em branco do meu futuro, esperando para serem escritas com tanta alegria, tantas felicidades, tanta boa-sorte. Tanto bem que me aguarda. Chorei de novo, lágrimas de felicidade. Meu estômago, que recusava comida, continua sensível àquele nó da garganta, mas desta vez é porque a alegria não cabe mais no meu peito. A paz que estou sentindo quer me explodir, quer atravessar o meu ser e se espalhar pelas estrelas, pelo universo, pelo meu mundo, minha vida, que se faz, agora, tão linda, tão perfeita.
Eu, agora, só sei fazer e esperar todas as coisas boas que, eu tenho certeza, estão também só me esperando.




E, Carlos, faltou sim eu te dizer uma coisa:
Quando, você sabe, o seu espírito puder me encontrar, eu espero que ele tenha evoluído o suficiente, eu espero que ele me proteja e nunca me deixe sozinha. Você prometeu que estaria comigo, e eu acho que, nesse momento, quando eu for capaz de sentir sua presença, seu abraço, sua proteção, você poderá me fazer feliz de verdade (e você entende o que eu quero dizer com verdade), como na sua vida terrena você nunca foi capaz. Fica comigo?

Nenhum comentário: