quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Dia dois de setembro,

E tudo que ele não foi.



Esperou com a pontinha dos pés no chão de modo que, empenhando-se o suficiente, alcançasse as estrelas com as mãos. De uma delas ele fez um anel e seu dedo passou a carregar o símbolo do impossível que em breve seria real. A brevidade do tempo que sopra como o vento e já se foi, porque era esperado demorou a passar, e houve espaço para medos, angústias, expectativas e lágrimas. Houve alegria irradiante, houve a perda do chão.


Os dias se arrastavam, longos. Tic -------------- Tac. Tic ------------------------------------------- Tac. Mais uma noite, uma a menos. A lua acompanhava todos os movimentos. Sumia e voltava para checar sua cria. Ela continuava lá, todas as noites, esperando que a lua mudasse logo, voltasse logo, sumisse novamente e então chegaria o dia. O esperado abraço no banco, vento, luz, concreto, cheiro, mãos, toque, palavras, “a nossa estrela está linda hoje”, brilho, ofuscamento, noite, silêncio.


Tic ------------------------ Tac.


Tanto se passou e agora não haveria mais romantismo, estrela, lua, noite, vento, toque, boca. Havia apenas silêncio. As luzes e a escuridão passavam pelas janelas e ninguém se levantava para observar. Não havia mais nada para se ver. As três letras de “fim” substituíram as quatro do “amor”. Paredes se amontoavam espremendo qualquer intenção de respirar, mas não havia teto. Também não havia céu. Era um imenso vazio e o universo se expressava como um ponto de interrogação que jamais encontrava um “porque”.


A confusão e a agonia, a tristeza devastadora, a busca pela vontade de sonhar perdida.


Mas já não existia teto aqui.


Veio o fim do inverno e as folhas secas do chão foram levadas com a harmonia do ar novo entrando pelos pulmões. Ainda havia dança, mas eram outras as vibrações. E elas remodelaram e reconstruíram o teto. Ele apontava mais longe, desta vez.


Voltou a espera como o eco de uma caverna escura.


No entanto eram apenas reverberações, ela já não existia mais. Nada mais existia, nem os sonhos, nem as palavras, nem o silêncio. Só o teto.


E agora procuramos nos entender, reinventar, descobrir o que fazer com o anel de estrela. E se houver outra caverna, estaremos lá antes que só sobre o eco. Antes que o futuro funda-se ao passado restando apenas a intenção que hoje resiste, insiste, tão destruída, com os pedaços colados, frágil, bela. Ainda me surpreendo com a intimidade revelada na sutileza do comentário sobre um gosto já tão sabido que reconhecê-lo é natural.





Simples - Lya Luft
"Porque entre o sim e o não é só um sopro,
entre o bom e o mau apenas um pensamento,
entre a vida e a morte só um leve sacudir de panos
- e a poeira do tempo, com todo o tempo que eu perdi,
tudo recobre, tudo apaga,
tudo torna tão simples e tão diferente."



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