Eu não sei escrever senão sobre o amor.
Todas as outras coisas o envolvem, ele faz parte de qualquer sentimento. Até a raiva tem um amor no passado.
Amor, desamor, amor. Amor inventado, sentido, mentido, platônico, destruído, calejado, desejado, sonhado, querido. Meu estado eterno é de amor, de todos os tipos, por várias pessoas e coisas e sentimentos e sóis e luas e flores e pássaros e brisas quentes de fim de tarde na primavera. É amor o que eu sinto ao abrir as janelas de manhã e ver as nuvens em tufinhos de algodão sendo atravessadas pelos fortes raios de sol que deixam o céu vermelho e alaranjado. É amor ao ver as fotos, ao reler textos antigos, até mensagens de celular. Até coisas que hoje não fazem mais sentido me abrem um sorriso pelo que um dia me fizeram sentir.
Até a dor se esquece. De algumas lágrimas também. Talvez feridas, queimaduras, machucados externos ou não. Se esquece da alegria, se esquece do sofrimento. Dá pra esquecer do primeiro beijo, da primeira cartinha, do primeiro presente. Mas do amor não se esquece. Aquele que verdadeiramente amou vai levar esta marca pra sempre. Porque esquecer o brilho nos olhos, o bater tão mais forte do coração, a ansiedade e espera pela ligação, pelo dia, pelo minuto, segundo que ia ouvi-lo ou vê-lo... Isto é impossível.
Os olhos nunca mais terão o mesmo brilho, o coração não vai mais bater daquela forma. Talvez tudo aconteça de novo, mas nunca mais será igual. Podem até haver os mesmos erros, pode até ser que os sorrisos sejam tão ou mais intensos... Mas não são os mesmos sorrisos, os mesmos olhos, os mesmos presentes, as mesmas palavras. Pode ser mais um amor-perfeito, mas terá outras cores.
Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
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