segunda-feira, 18 de abril de 2011

O ouro fosco


BLAM! Bateu a porta com a força que sempre teve e nunca usou. O carro arrancou com a ligeireza de quem sequer olhou para trás. Ele foi, com uma mão no volante, e a outra envolta em sua melhor companhia - uma garrafa de scotch quase vazia. Já ela, sozinha, seguiu. Só que para o outro lado.
A chuva que há pouco caíra mantinha um ar úmido que entrava por seus pulmões e limpava, como que arrumando a casa. Jogava água nos tijolos secos que a partir de agora construiriam seu interior. As pedrinhas do caminho afundavam sob o salto do sapato caro que ela havia comprado especialmente para a ocasião, suas bodas de ouro aos 66 anos de idade. Comemoraria o que bradava sempre aos quatro ventos: seu orgulho pela vida que construiu, pelo amor que encontrou sem ter precisado do tempo para conquistar. Tão difícil e tão simples, esse era o grande sucesso.
Na caminhada, os pensamentos desobedeciam a sua imposição prévia de se manterem quietinhos e faziam uma bagunça barulhenta que, não fosse o fato de que conhecia aquelas ruas como o berço em que se criara, se teria perdido em meio às alamedas escuras, já que tudo dentro e à sua volta era, agora, labirinto, desconhecido.
Aquele a quem ela abandonava passo a passo havia há muito se transformado em seu lar, de onde ia e vinha todos os dias do mercado carregando nos braços pacotes de tudo aquilo que seria correto ser e agir uma vez mulher. Jamais contou com uma mão marital que a ajudasse, repartindo os pesos que a vida trazia. Ao contrário, era apenas ela e seus planos, as viagens românticas em que sempre acabava sozinha olhando a bela paisagem, enquanto ele virava a noite no bar do hotel. Mas ela se mantinha vivendo no mundo bom que sonhara para si e não deixaria que qualquer pessoa a arrancasse dele.
No entanto, hoje, era como se ela houvesse furado a bolha e saltado para a vida. Tirou a venda dos olhos e o que podia ver era o fracasso que sempre escondera por detrás do sorriso nas fotos de molduras tão caras. Era uma liberdade que ela nunca se permitiu buscar, porque considerava sua vida atrelada à daquele homem, como se qualquer outro caminho que não com ele se transformasse numa contramão. Sua realidade não era tão boa quanto desejaria se pudesse escolher novamente, mas ponderando todas as pobres decisões que tomara na vida, resolveu que esta ela faria por bem em manter. Os piores erros só se mostram quando depois de toda a espera e derrota, piscamos para o passado e enxergamos o que, por anos a fio, não conseguimos ver, mesmo estáticos, olhando profundamente. É como encontrar o desenho escondido – e tão óbvio – num quadro pelo qual se passa todos os dias.
E com a batida da porta do carro, ela se virou e viu um caminho vazio que continha apenas as suas pegadas e papéis rasgados pelo chão. Nunca houve um marido, mas apenas o rótulo. E os gritos que ela nunca pôde ouvir agora ecoavam, tentando dissuadi-la de exercer a profissão que escolhera - ser mulher daquele homem. Entretanto não restaram mágoas, foi ela quem quis. Ele tinha necessidades, ela as supriu sem considerar suas próprias, julgando que nunca poderia dizer não, saltar do cavalo em plena corrida e abandonar a vida perfeita. Se houve algum erro, foi dela, por não ter percebido a tempo que o tempo era seu, e que não havia vitória naquela linha de chegada.
O vento úmido assoviava uma compreensão talvez tardia, mas ainda útil, de que só vale a pena seguir um papel se for fruto de seu próprio roteiro, enfim. E as pedrinhas no asfalto do caminho de volta a afundavam como que abrindo um mundo abaixo deste, uma vida depois desta, uma chance.

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