sábado, 30 de abril de 2011

Profissão.

Quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, li um livro do Sidney Sheldon chamado A Ira dos Anjos. Quando eu ainda gostava de Sidney Sheldon, e quando eu ainda acreditava que histórias perfeitas podiam existir.
Nessa história perfeita tinha uma heroína, chamada Jennifer, que virou advogada pra fazer justiça. E fazia.
Quando eu quis fazer Direito, não foi pra fazer justiça... Nada dessa nobreza do tipo "eu quis ser médico pra salvar vidas", mesmo porque, com o tempo, você vê que Direito e Justiça são duas coisas totalmente diversas. Mas então, fiz Direito pra ter aquela parte legal, que também tinha no livro, de falar com o júri, argumentar, provar as coisas, investigar.
Aí você entra na faculdade e já descobre em primeiro lugar que quase nenhum crime vai pra júri, que você não pode falar nem com eles nem com testemunha nem com ninguém além do juíz, que o delegado não vai te deixar ficar circulando pela delegacia da polícia civil igual os promotores fazem no law and order... Ou seja, tiraram toda a emoção da historinha.
Mas aí eu comecei a fazer estágio e redescobri o meu curso, sabe? Você não pode chegar no tribunal e falar, falar, falar... Mas você pode fazê-lo em duzentas páginas, ou dez. Você pode brigar! E não só no tribunal, mas na vida! Fazendo Direito, ALGUMAS pessoas aprendem que as coisas não precisam ser aceitas. Você sai do estado de passividade que tem a sociedade e começa a pedir explicações, exigir motivos, demandar direitos. Lógico que não precisa ser estudante de Direito pra fazer isso, mas quando você é, fica tudo mais bonito... é assim: fala um artigo de um código e eu te respeito. Fim. HAHA
E outro lado que eu também descobri é o cheirinho de escritório, sabe? Acho que isso é o que me dá PAIXÃO pelo que eu faço. Aquele cheiro de arquivo, cheio de papéis novos misturados com os velhos, e as pastas suspensas todas na ordem certinha, seguindo a um código, um modelo... O molha-dedo e o processo com a capa da cor da vara em que ele está, com os carimbos e despachos... O perfurador, o sistema, o barulho dos papéis um se seguindo do outro quando a gente só passa o dedo. Os homens de gravata, as mulheres de salto alto... Você saber que aquele papel que você escreveu vai ser lido pelo juiz, pelo desembargador, pelo togado lá de Brasília... Saca essa emoção?
Eu cresci vendo minha mãe trabalhar num escritório, ia lá com ela porque gostava da organização, dos materiais, do arquivo, da importância que tudo aquilo tem... Porque um papelzinho, um documento fora do lugar, desmonta toda aquela estrutura... Um prazo perdido, uma conta feita errado, uma jurisprudência mal citada, uma lei que você esqueceu de olhar, uma guia de recolhimento pro lugar errado... Tudo isso dá um senso de responsabilidade que enobrece, que é inexplicável porque é nesse momento que você segura destinos na mão e é nesse momento que você sente o poder do Direito, da argumentação, da inteligência e senso de oportunidade... É viver no limite, dia após dia, se preocupando com um milhão de coisas diferentes, pensando, criando maneiras... E a satisfação de uma sentença favorável? Ninguém paga.

2 comentários:

... disse...

Olha, fera...tô aqui só esperando você fazer parte de algum Ministério, ok?
E é sério.
Só pra constar.
*_*

Anônimo disse...

Fazia tempo que não passava por aqui. Hj resolvi entrar e encontro esse texto. Não pude deixar de comentar. Realemnte verdade o que vc escreveu, pq tbm me identifico com mta coisa aí.
Normalmente, tenho mais tristeza do que alegria com o Direito, mas vale mto a pena qndo vc vê q ele fez a vida de alguém melhor.
Gostei do texto! Bj
Murilo