Obrigado (Por Ter Se Mandado)
Cazuza
Obrigado
Por ter se mandado
Ter me condenado a tanta liberdade
Pelas tardes nunca foi tão tarde
Teus abraços, tuas ameaças
Obrigado
Por eu ter te amado
Com a fidelidade de um bicho amestrado
Pelas vezes que eu chorei sem vontade
Pra te impressionar, causar piedade
Pelos dias de cão, muito obrigado
Pela frase feita
Por esculhambar meu coração
Antiquado e careta
Me trair, me dar inspiração
Preu ganhar dinheiro
Obrigado
Por ter se mandado
Ter me acordado pra realidade
Das pessoas que eu já nem lembrava
Pareciam todas ter a tua cara
Obrigado
Por não ter voltado
Pra buscar as coisas que se acabaram
E também por não ter dito obrigado
Ter levado a ingratidão bem guardada
Pelos dias de cão, muito obrigado
Pela frase feita
Por esculhambar meu coração
Antiquado e careta
Me trair, me dar inspiração
Preu ganhar dinheiro
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Eu nunca havia ouvido essa música, e pensando bem ela faz todo o sentido com relação a uma ou duas pessoas que nunca pensaram em voltar pra buscar as coisas que se acabaram. Estas foram as piores.
Ninguém pode dizer que nunca teve uma ou outra decepção de amor, sabe. E também tem isso: no primeiro dia você chora, no segundo perde a fome, no terceiro compensa comendo chocolate. No quarto já levanta e volta pra vida porque ela não vai ficar te esperando, e cada dia perdido é uma oportunidade jogada fora.
Mas independentemente de quantos dias tenham se passado desde que eu botei de volta a cara no mundo, essas sombras ainda ficam ali no cair da tarde, atrás da cortina. Parece que de vez em quando elas ressurgem e cobrem o sol.
A dor é bem pior quando não é dividida, sabe? Quando a outra pessoa não tá nem aí, e você se descabelando do outro lado. E mesmo depois que ela passa, ainda ficam essas sombras. Sei lá, é como se o mundo tivesse aquele jeito certo de ser, das pecinhas se encaixarem, do sim se ligar ao sim, do desejo precisar do desejo do outro. E aquele segundo pelo qual passou pela sua cabeça de ligar, mas você se segurou... E pela dele, nem passou. Sabe? Nessa hora o mundo não encaixou mais, e aí saiu do lugar.
Pra mim o mundo devia ser composto de equações matemáticas, de programinhas de computador. Aparece lá o pedido: você deseja ser meu amigo? Sim. Você deseja me dar um beijo? Sim. Você deseja passar noites inteiras abraçados conversando sobre o clima, a lua, como foi seu dia, o que você quer ser quando crescer, que tipo de flor vai decorar a igreja, o nome do nosso primeiro filho, o lago em frente à nossa casa de vidro quando ficarmos velhinhos de mãos dadas vendo o sol se pôr? SIM SIM SIM!
Senão, não.
E aí tudo estaria resolvido (y)
Mas aí tenho pensado cá comigo esses tempos que é muito diferente um cara de vinte de um de vinte e oito, saca? E eu to vivendo essa história de conquista, de não ser escancarado. De não chegar e perguntar, ou dar um beijo, ou pedir pra segurar a mão na escada rolante do shopping igual a quando eu tinha quinze anos. Mas sim as duplas interpretações, o vazio no meio da frase, uma espécie de "complete e saiba o que eu estou sentido". Tem os olhares, a dúvida, o passar a noite pensando na frase fatal que vai dizer no dia seguinte. O gostar e fingir que não, o observar cada detalhe e fazer de conta que não viu, depois soltar sem querer, mostrando que reparou. É o tom de querer saber quem é "esse" e o que você fez ontem, por quê não veio.
A conclusão é que sim, a vida seria muito mais fácil no programinha de computador. Mas o coração acelerado que vem com a conquista, isso o computador não reproduz, nem faz sentir.
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