domingo, 3 de julho de 2011

250ª postagem

Eu não sei se vocês perceberam, mas eu quase nunca falo de coisas importantes aqui. Por mais que elas possam parecer essenciais, por mais que vocês achem que elas são toda a minha vida, elas não são. São apenas situações ou pessoas que eu posso evitar e pronto. Que eu posso escolher ignorar a existência. Que eu posso escolher sentir pena ou abandonar de vez, escolher não atender o celular ou responder emails. Que eu posso "excluir" e pronto. Aqui eu falo de amor entre homem e mulher. De relacionamentos que começam e terminam, que são escolhas e não imposições. Eu não falo daquilo que eu não pude escolher. 
Mas hoje eu vou falar, porque a dor é tão grande que eu tentei me sentar no chão frio e fazer daimoku e não consegui, simplesmente não tive forças. Acho que quando você perde a fé de que as coisas vão melhorar, de que você pode mudar, de que tudo não precisa ser assim, é o final, sabe? É quando você aceita o sofrimento e simplesmente desiste. Porque eu não posso mudar, porque não depende de mim. Eu não escolhi.
Com o tempo eu vim perceber que essa minha obsessão por relacionamentos é apenas tentar esconder o que me incomoda. Falar disso pra não falar do resto. Fingir que é isso que me importa e aí todo mundo vai me achar normal, todo mundo vai vir ler isso daqui e achar legal as minhas análises de comportamento humano. Todo mundo vai aceitar. Porque falar disso é fácil pra mim, por mais que seja difícil pras pessoas, porque como eu disse, isso não importa.
Eu percebi isso na terapia. Faz sei lá, dois ou três meses, e nem sequer uma vez eu mencionei algum ex amor. Mas todos os dias eu menciono o meu pai. Faz uns cinco meses que eu não falo com ele, que eu não suporto olhar na cara dele, que tudo o que ele faz me incomoda. Que eu não suporto mais a gritaria, os latidos. Que eu sou uma intrusa não-querida na minha própria casa e que a minha própria casa se resume ao meu quarto e à porta fechada. 
Eu nunca pude me sentar no sofá sem ficar me preocupando onde ele quer sentar. Nunca pude ficar com o controle remoto na mão. Nunca pude escolher o programa de tv, o programa de férias, o almoço, o restaurante, a viagem. Nunca pude escolher se eu queria estudar ou ouvir música, nunca pude preferir o silêncio. Nunca pude preferir. 
Eu sempre tive que pedir permissão, até pra gastar o meu próprio dinheiro. E tive que esconder o que eu achei que ele não aprovaria. Sempre tive que gritar pra ter uma opinião, mas nunca tive um direito, nem o de ser ouvida. Nunca tive o direito de ir mal na escola, de ir dormir na casa do namorado, de sair de casa sem dizer pra onde. Nunca ninguém me ouviu.
Eu não tenho direito ao silêncio e também não tenho direito à voz. 
Eu não sou nada além de um inseto inocomodando, um inseto que dá gastos, aumenta as contas. Que fica doente e tem que levar pro hospital, que tem o dente torto e tem que pagar dentista, que tem crise existencial e tem que pagar terapeuta, que quando tá chovendo muito tem que ir, às vezes, buscar de carro. Que tem que pagar tudo que quer, porque não importa se meu sonho é ter um sax e ele trocou duas televisões novinhas de lcd por outras duas de led com internet, e comprou um ar condicionado no inverno e até hoje não instalou, enquanto eu tenho que ficar parcelando no cartão pra comprar roupa de frio. 
Eu sou superdotada, mas não tá bom, porque este bimestre eu não ganhei o certificado de melhor aluna. Porque eu corrigi três vezes a professa e ela me deu nota baixa. E eu só incomodo porque hoje eu estava fazendo um download de um filme pra assistir com a minha amiga que vai fazer aniversário e tava atrapalhando ele assistir youtube com o laptop ligado na televisão, porque afinal de contas a tela de 15" do laptop pra ver videos de youtube com resolução mínima é pequena demais pra ele, e é ele que manda, não importa se você tá há horas sentada na frente da tv esperando o programa que você quer assistir, ele chegou e agora vai ser do jeito que ele quer.
Eu me sinto mal por pensar que eu preferia que fosse ele que tivesse morrido quando o pai do meu ex morreu. Porque o pai do meu ex passava frio pra dar a blusa dele pro filho, mesmo sendo ele que pilotava a moto e o vento ia todo nele. E o meu pai reclamou de me levar no hospital quando a minha pressão estava totalmente desregulada (12 x 6) e meu rosto dormente indicava que talvez eu pudesse ter um derrame. Ele reclamou porque ia demorar e já era quase hora do almoço.
Ano que vem eu vou mudar pro noturno na faculdade, me ferrar o dobro porque os professores são piores, mas eu vou arrumar um emprego em tempo integral pra poder ter dinheiro pra me mudar daqui.
Eu não suporto mais essa casa, e ser uma pessoa estranha que só dá despesa e incômodo. 
Eu não suporto mais o fato de toda vez que ele está no recinto ficar olhando pra baixo porque eu não quero olhar pra cara dele. E esse pensamento recorrente de que seria tão bom se ele não estivesse aqui.
É um sofrimento que eu não posso escolher acabar. 
Mas existem certas coisas que se não dessem cadeia, eu faria. E acabar com isso é uma delas.



E eu estou cansada de molhar o teclado no notebook porque meu único refúgio é minha internet, onde ninguém me vê, e ninguém percebe e eu posso fingir que meu grande problema é um cara qualquer ter mentido que me amava.