quarta-feira, 13 de julho de 2011

I Had a Dream

Era um prédio todo de vidro, de cerca de 70 andares. Ela, na cobertura, olhava pra fora, as luzes da cidade. A noite ia alta e a lua não aparecera, a sala estava escura e se ela gritasse, não haveria uma alma que pudesse escutar. Decidiu que o faria, bem alto, tentando expulsar seus demônios. Havia apenas uma mesa, uma cadeira, uma pena e um tinteiro e mais nada na sala de paredes vermelho-escuro e chão de madeira bem limpo. Sentou-se, retomando o fôlego do grito e encontrou um papel em branco na gaveta. Molhou a pena, deixou cair um pingo de tinta que se misturou ao sangue que vomitara com o grito. Com as mãos trêmulas, foi delineando a palavra LIBERDADE, que mal se fazia compreender em meio às curvas que a mão fazia, sozinha, deixando tudo numa espécie de garrancho que não precisava ser lido, porque expressava o sentimento. Perdera o formato de palavra e consubstanciara-se em gemido, em grito, em dor.
Olhou então fixamente para o vidro da janela e o cérebro não pensava. Apercebeu-se, neste momento, de que não havai cérebro, mas apenas instintos. E uma vontade rasgante de pôr fim àquilo tudo. Correu, como quem foge de um trem pela própria linha, como quem foge da morte, da escravidão, mas sem saber ao certo a consequência do escape. Com mais um grito, atravessou a parede de vidro que a prendia naquele universo. Sequer sentia os pequenos cacos penetrando por cada poro do seu corpo, não sentia o arder da ferida, pois aquele era o caminho para curar a maior das dores: a vida.
Abriu os olhos, num susto. Acendeu o abajur do criado-mudo e limpou seu suor. Olhou em volta, estava em seu quarto. Segura, na sua própria cama. O coração acelerado parecia ainda viver a adrenalina do sonho ruim. Sonho. Passou a mão em seu rosto, tentando reconhecer-se, e sentiu vazar os estilhaços de vidro pela sua pele. Ardia, sangrava. A dor ainda estava ali, foi só um sonho. E ela, covarde, manteve-se abraçada ao seu travesseiro e apenas rezou. Já sabia que nada que fosse terreno seria capaz de aliviar aquele sentimento, mas o que mais poderia ela fazer? Uma lágrima de resignação desceu pelos seus olhos e os cacos foram jogados ao chão. Conseguiu dormir horas depois, porque os olhos ardiam com o pranto. Ainda era madrugada.
Mas no dia seguinte, ao se levantar, pisaria nos cacos e as gotas de sangue a relembrariam da dor enraizada, que nem preces, nem pranto, nem sonhos conseguiriam exterminar.

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