De repente, eu não conseguia mais comer o bolo. Cada mordida levava horas, cada respirar também. Encostada na parede, olhando sem ver, ou te vendo em tudo o que olhava. Via, pela janela, alguns relâmpagos mudos, sem razão, trovão ou chuva. Sem sentido. Como nós.
Comi mais um pedaço, sem vontade. Senti frio. Achei que as luzes ficariam melhores apagadas. Nada é mais vazio que o escuro. Talvez, eu seja. Os relâmpagos ficavam mais constantes, mas não iluminariam nada por tempo o bastante. Será que nós duraríamos tempo o bastante?
Eu, de novo, não conseguia mais me mover. Sem forças, novamente. Dessa vez, sem músicas, sem versos que você já tenha me dito. Só a espera. Eu sei que não havia silencio, afinal, todo mundo continuava com as suas vidas, seus problemas, brigas à toa, felicidades e infelicidades. O mundo só havia parado pra mim e mais ninguém. Ainda relâmpagos mudos, ou era eu a surda. O silêncio estava aqui dentro, não lá fora. Eu já cansei de escutar. Se vai doer, que seja em paz. Sem meias palavras ou falsas promessas ou mais arrependimentos. Sem pressa de chegar, por não haver um destino pronto, esperando no cais.
Olhei para um ponto específico no céu, era algo que brilhava. Uma estrela, talvez um planeta... podia ser um avião, não olhei por mais de um segundo. Desviei os olhos para o chão. Tão distantes um do outro, e eu no meio, sem sequer encostar em qualquer deles. Sem saber por qual dos dois lutar, de qual deles esperar, em quê acreditar.
Os relâmpagos tornaram-se mais escassos, a chuva não viria de qualquer forma. Seria mesmo mais difícil dormir essa noite, eu já sabia. O último pedaço de bolo, mas sem a última cena da história. Sem saber quantas ainda estavam por vir, quantas páginas tinha o livro. Sem poder sequer folheá-lo e tentar adivinhar se o final vai ser bom pra alguém. Só havia a certeza de mais lágrimas no escuro e mais um dia sem você.
Um comentário:
putz..."mais um dia sem vc."
no coment.
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