sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O Melhor Lugar

Fechou a porta atrás de si, como que para trancar-se em si mesma. Seu mundo parecia-se com o tamanho do quarto, porquanto não fazia mais diferença estar sozinha ou cercada de gente, dessa gente que não entendia nada... Melhor isolar-se. Só. Era só que ela estava, era só que ela se sentia. A sós ela e o quarto que parecia diminuir de tamanho, as paredes se apertando contra ela. Ela, sentada no chão frio, num canto. Parada como um grão de poeira, esperando ser jogada de lá para outro lugar qualquer. Não faria diferença, qualquer lugar.
Parada, esperava. Estática, serena. Havia parado de pensar. Todos os seus amigos com problemas e era sempre ela a que dava as soluções. Aquelas situações tinham respostas, mas ela se encontrava num beco sem saída, uma encruzilhada, jogando cartas a esmo, esperando para dar o próximo passo. À beira de um abismo, qualquer novo passo é um perigo, e ela já não estava disposta a arriscar. Delegara a segurança de sua cama a outra pessoa, que não era mais ela. Ela, no chão. Não se deitaria até se encontrar, e esperava.
Deixou que acabasse a bateria do celular, deixou que as ruas da cidade iluminassem lá dentro, deixou as portas trancadas, deixou um silêncio gelado tomar o lugar. Arriscou um acorde no violão, mas preferiu o silêncio.
Não se levantou para ir até a gaveta, não queria despender esforço algum na empreitada, foi se arrastando uns poucos metros. Lá dentro, procurou por algo que lhe pudesse trazer um pouco de paz. Um álbum de fotografias que não quis abrir. Mexendo mais, uma rosa amarelada pelo tempo que se transformou num passado longe e cheio de arrependimentos. De olhos fechados, suas mãos se guiavam sós por entre os entulhos que ela achava que deveria manter, ou que não tivera coragem para botar no seu lugar: o lixo. Finalmente, uma caneta. Retirou da gaveta, junto com um caderno antigo, onde descrevera suas primeiras paixões. Sua adolescência impressa naquelas folhas deram um ar de saudades. Saudades de quando não sabia amar e qualquer desentendimento era a abertura para começar outra aventura qualquer. Saudades das aventuras que nunca deixavam marcas. Saudades da inocência, dos livros e das bonecas. Das fofocas sadias de crianças que não conhecem a malícia. Ouvira, outro dia, duas menininhas discorrendo sobre como chegar à casa de uma terceira. Era a voz da pureza. Era o que ela já não sabia fazer.
Abriu, então, a primeira folha em branco do caderno, já no fim. Escreveu algumas dezenas de palavras desorganizadas e sem nexo, que queriam resumir o fato: eu cresci. Ela percebera que ter medos fazia parte de ter compromissos, que ter compromissos fazia parte de ser adulta. Que seu mundo não contaria mais com a segurança de uma cama quente, um copo de leite e um sonho que faria o amanhã parecer melhor. Que, agora, ela realmente desejava as coisas, que não podia contar com o mero acaso para que elas acontecessem, como sempre fez, simplesmente por não se importar. Que, agora, ela se importava. Que alguém também se importava com ela, e que, por não haver mais ninguém no mundo que tivesse todas as respostas, lhe adivinhasse as vontades, lhe segredasse sonhos e compartilhasse os mesmos desejos, ela não estava disposta a deixar-se ficar num chão gelado, esperando a solução.
Trancou novamente a porta atrás de si e saiu. Foi em busca daquele que seria “o melhor lugar”, e ela sabia exatamente qual era o caminho até lá.






Enfim, encosta seu barco em mim que o sol já se pôs
A sós, o mundo termina na fina fronteira dos nossos lençóis
Em nós, espalham-se os laços, desfazem-se os nós
Sonhamos paisagem, compramos passagem e nunca voamos pra lá
Enfim, passeia sua boca em mim até me calar
Aqui ainda parece o melhor lugar

2 comentários:

Anônimo disse...

Talvez o silêncio de um quarto seja suficiente para apaziguar os pensamentos conturbados e mostrar com clareza a direção dos sons do lugar ideal que não se encontrava, por se concentrar no som das coisas erradas...

Ana Lins disse...

nossa Carol, vc se expressa muito bem! =]

escolha perfeita da música! amo!


bjo